Da guerra contra os hicsos ao Vale dos Reis: o nascimento do Novo Império

O texto analisa a formação do Novo Império egípcio a partir da expulsão dos hicsos, abordando a reunificação política, a expansão territorial, a consolidação de Tebas e a organização do trabalho em Deir el-Medina como fundamentos do poder faraônico.

HISTÓRIA

Lucknup Haigert

8/28/202623 min read

O Nascimento do Novo Império

Por volta de meados do século XVI a.C., o Egito estava muito distante daquela imagem de unidade, estabilidade e poder absoluto que normalmente associamos aos grandes faraós. O território encontrava-se politicamente fragmentado, diferentes forças disputavam o controle do Vale do Nilo e, no norte, uma dinastia de origem levantina governava a partir de Avaris, no delta oriental. Ao sul, os governantes de Tebas tentavam ampliar sua influência e reconstruir uma autoridade que há muito deixara de alcançar todo o território egípcio. Mais além, na Núbia, o poderoso reino de Kerma representava outro centro político capaz de desafiar os interesses egípcios. Era, portanto, um Egito dividido, cercado por potências rivais e governado por diferentes centros de poder. Poucas décadas depois, porém, dessa mesma instabilidade surgiria uma das fases mais poderosas de toda a história faraônica.

Entre aproximadamente 1550 e 1070 a.C., o Egito viveria aquilo que chamamos de Novo Império, período que produziria alguns dos nomes mais conhecidos de sua história — Hatshepsut, Tutmés III, Amenhotep III, Akhenaton, Tutancâmon, Seti I e Ramsés II — e transformaria o país em uma potência capaz de intervir militarmente, economicamente e diplomaticamente muito além do Vale do Nilo. A expulsão dos hicsos e a reunificação conduzida por Ahmose I são tradicionalmente consideradas o ponto de partida dessa nova era. Mas talvez seja importante lembrar que o Novo Império não nasceu em um grande palácio, nem começou com uma procissão religiosa ou com uma majestosa cerimônia de coroação.

Para compreender essa transformação, precisamos voltar ao chamado Segundo Período Intermediário, uma época em que a unidade política egípcia havia sido profundamente abalada. No norte, uma dinastia que a historiografia posterior denominaria hicsa controlava Avaris e grande parte do delta. Durante muito tempo, a presença dos hicsos foi narrada quase como uma história de invasão: estrangeiros teriam surgido repentinamente, tomado o Egito e submetido sua população. Hoje, entretanto, o quadro que emerge é muito mais complexo. Populações originárias do Levante já viviam no delta havia gerações, participando das redes comerciais e da própria sociedade egípcia. O poder hicso parece ter surgido dentro desse contexto de migração, integração e fragmentação política, e não necessariamente como consequência de uma única invasão militar em grande escala. Isso não significa que os conflitos posteriores tenham sido menos violentos. Significa apenas que a origem daquele poder deve ser entendida dentro de um processo histórico mais amplo.

Fotografia por Kurohito - Trabajo propio, CC BY-SA 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=8454238

Segunda Estela de Kamose - Comemorando a vitória na campanha contra os Hicsos

Nasceu de uma Guerra

Enquanto Avaris dominava boa parte do norte, uma linhagem de governantes sediada em Tebas começou a desafiar essa ordem. Um dos personagens centrais dessa história foi o faraó Seqenenre Tao, também conhecido como Seqenenre Taa. Não sabemos exatamente como se iniciou seu confronto com os hicsos, tampouco podemos reconstruir todas as etapas dessa guerra. O que sabemos, entretanto, é que a morte de Seqenenre foi excepcionalmente violenta, e sua própria múmia tornou-se uma das evidências arqueológicas mais impressionantes desse período. Mais de três mil anos depois daquele conflito, o corpo do faraó ainda carrega as marcas da violência que acompanhou a disputa pelo Egito.

Uma análise de sua múmia por tomografia computadorizada, publicada em 2021, identificou diversas lesões graves no crânio e indicou que Seqenenre provavelmente morreu por volta dos quarenta anos. Os pesquisadores observaram ferimentos que parecem ter sido produzidos por diferentes tipos de armas e levantaram a possibilidade de que o faraó estivesse com as mãos imobilizadas quando recebeu alguns dos golpes. A partir dessas evidências, foi sugerido que Seqenenre poderia ter sido capturado durante uma batalha e posteriormente executado, ou morto em alguma outra circunstância relacionada ao combate. É uma hipótese fascinante, mas justamente por isso precisamos separar aquilo que a arqueologia demonstra daquilo que tentamos reconstruir a partir dela. Podemos afirmar que Seqenenre sofreu uma morte violenta. Podemos relacionar sua morte ao contexto de guerra em que vivia. Mas dizer exatamente onde ele estava, quem desferiu os golpes ou como se desenrolaram seus últimos minutos ultrapassa aquilo que as evidências nos permitem afirmar com segurança.

Essa distinção é importante porque revela algo fundamental sobre o trabalho do historiador. O passado raramente chega até nós completo. Encontramos fragmentos: uma múmia, uma inscrição, uma tumba, uma estela, um pedaço de cerâmica. A partir deles, tentamos reconstruir acontecimentos que já desapareceram. E, às vezes, esses fragmentos tornam a história surpreendentemente concreta. Quando observamos as lesões preservadas no crânio de Seqenenre, a guerra contra os hicsos deixa de ser apenas uma disputa entre dinastias registrada em uma cronologia. Ela passa a ter um rosto — ou, nesse caso, as marcas deixadas sobre ele.

A morte de Seqenenre, entretanto, não encerrou o conflito. Seu sucessor, Kamose, continuou a ofensiva contra os governantes de Avaris e deixou uma documentação particularmente importante para entendermos essa fase: as chamadas Estelas de Kamose. Nelas, o próprio faraó apresenta sua decisão de entrar em guerra e descreve suas campanhas contra o norte. Como acontece com praticamente todos os grandes documentos reais egípcios, não devemos lê-las como se estivéssemos diante de uma reportagem moderna, preocupada com equilíbrio e objetividade. Os textos reais eram instrumentos de legitimação política. Kamose precisava aparecer como o governante legítimo, o restaurador da ordem e o defensor do Egito. Suas vitórias deveriam parecer inevitáveis; seus inimigos, ilegítimos; sua guerra, necessária.

Isso, porém, não torna as estelas menos importantes. Muito pelo contrário. Elas são extraordinárias justamente porque nos permitem observar não apenas aquilo que o rei dizia ter feito, mas a maneira como desejava que sua guerra fosse compreendida. Na narrativa criada pela corte tebana, o Egito aparecia dividido entre diferentes governantes, e Kamose apresentava a restauração da unidade territorial como uma obrigação real. A campanha militar transformava-se, assim, em um discurso político. A guerra não era apenas uma disputa por território: era apresentada como uma luta pela própria ordem do Egito.

Esse período também nos obriga a olhar para personagens que durante muito tempo permaneceram nas margens das narrativas tradicionais, especialmente as mulheres da família real tebana. Uma das figuras mais importantes foi Ahhotep, provavelmente esposa de Seqenenre e mãe de Ahmose I. A genealogia dessa família é bastante complexa e alguns vínculos continuam sendo discutidos entre os especialistas, o que exige cuidado diante de árvores genealógicas excessivamente precisas. Mas, ainda que certos detalhes permaneçam incertos, a importância política de Ahhotep é difícil de ignorar. Uma estela erguida durante o reinado de Ahmose apresenta a rainha como alguém que protegeu o Egito, reuniu pessoas dispersas e contribuiu para pacificar o Alto Egito. Trata-se de uma linguagem surpreendente porque atribui a uma mulher da família real funções normalmente associadas à preservação da ordem política.

A possibilidade de Ahhotep ter comandado pessoalmente tropas ou participado diretamente de operações militares continua sendo debatida, e seria imprudente transformar essa hipótese em certeza. Ainda assim, a própria necessidade de sua lembrança naquele contexto demonstra que seu papel esteve longe de ser meramente cerimonial. Em um momento de guerra, sucessões e instabilidade, mulheres da casa real também participavam da continuidade dinástica e da preservação do poder. Outra personagem fundamental seria Ahmose-Nefertari, que se tornaria Grande Esposa Real de Ahmose I e uma das figuras femininas mais influentes do início da XVIII Dinastia. Sua importância seria tão profunda que ultrapassaria sua própria vida: ao lado de Amenhotep I, ela seria venerada durante gerações pela comunidade de trabalhadores responsável pelas tumbas reais da região tebana. Séculos depois de sua morte, habitantes de Deir el-Medina ainda representavam e cultuavam essas figuras como ancestrais reais divinizados.

Imagem da múmia de Seqenenre-Taa-II.

(A) Imagem da cabeça e da parte superior do tronco da múmia de Seqenenre-Taa-II, mostrando múltiplas e graves lesões craniofaciais. (B) Imagem em vista lateral direita da cabeça e da parte superior do tronco da múmia de Seqenenre, mostrando os membros superiores deformados, com as mãos flexionadas nos punhos e os dedos espasticamente contraídos.

Fonte: https://www.frontiersin.org/journals/medicine/articles/10.3389/fmed.2021.637527/full?utm_source=chatgpt.com

Antes de tudo isso, porém, a guerra precisava ser vencida.

Depois de Seqenenre e Kamose, o trono chegou a Ahmose I, tradicionalmente considerado o primeiro faraó da XVIII Dinastia e fundador do Novo Império. Ahmose continuou a ofensiva de seus predecessores, tomou Avaris e expulsou a dinastia hicsa de sua principal base no delta. À primeira vista, poderíamos imaginar essa vitória simplesmente como a reconquista de uma cidade. Na prática, seu significado era muito maior. A queda de Avaris representava o restabelecimento da autoridade de um único governo sobre grande parte do território egípcio e abria caminho para uma profunda reorganização do Estado. Depois de décadas de fragmentação, o poder começava novamente a se concentrar.

Curiosamente, parte importante do que sabemos sobre essas campanhas não foi registrada em uma grande inscrição produzida para glorificar o próprio faraó. Ela vem da tumba de um soldado. Seu nome também era Ahmose e, para diferenciá-lo do rei, tornou-se conhecido entre os historiadores como Ahmose, filho de Ebana. Ele viveu em El Kab, no Alto Egito, e deixou nas paredes de sua tumba uma inscrição autobiográfica descrevendo sua carreira militar. O texto é uma das fontes primárias mais importantes para compreendermos a transição entre a XVII e a XVIII Dinastias. Nele, Ahmose relata que serviu durante as campanhas contra Avaris, descreve combates, recompensas recebidas por bravura e operações realizadas pelo exército egípcio. Depois da queda da capital hicsa, menciona também a campanha contra Sharuhen, no sul de Canaã, onde ocorreu um cerco prolongado. É principalmente dessa inscrição que conhecemos a tradição de que Sharuhen teria permanecido sitiada durante três anos.

A autobiografia de Ahmose, filho de Ebana, é valiosa porque muda ligeiramente a posição de onde observamos a guerra. Continuamos dentro de uma narrativa construída para preservar uma memória e celebrar uma trajetória individual, portanto não estamos diante de uma fonte neutra. Mas já não vemos o conflito exclusivamente através dos olhos dos faraós. Vemos um militar construindo sua carreira dentro da nova estrutura estatal, recebendo recompensas, participando de campanhas e vinculando seu sucesso pessoal ao serviço prestado ao rei. De repente, o nascimento do Novo Império deixa de ser apenas uma sucessão de faraós e passa a envolver também os homens que lutaram nas campanhas que permitiram essa transformação.

A vitória sobre os hicsos teve consequências que ultrapassaram a reunificação territorial. A experiência da fragmentação política e da presença de forças rivais nas fronteiras parece ter contribuído para uma mudança gradual na maneira como os faraós enxergavam a segurança do Egito. Um país que durante décadas precisara lidar com governantes concorrentes dentro de seu próprio território passou a desenvolver uma política externa cada vez mais agressiva. Em vez de simplesmente proteger o Vale do Nilo e aguardar que ameaças chegassem às suas fronteiras, os reis da XVIII Dinastia passaram a projetar poder para além delas. Campanhas militares avançaram sistematicamente em direção à Núbia e ao Levante, e os sucessores de Ahmose levariam esse processo cada vez mais longe.

É justamente nesse movimento que começamos a compreender por que utilizamos a palavra “império” para falar desse período. Durante o Reino Antigo, os faraós haviam governado um Estado extremamente poderoso, centralizado e capaz de mobilizar enormes recursos, mas sua estrutura territorial permanecera fundamentalmente associada ao Vale do Nilo. No Novo Império, a situação seria diferente. O Egito passaria a exercer diferentes formas de domínio muito além de seu núcleo tradicional. Exércitos marchariam em direção ao sul e ao nordeste; governantes estrangeiros seriam obrigados a reconhecer a supremacia faraônica; tributos e riquezas circulariam para o Egito; e a corte egípcia passaria a integrar uma rede diplomática que conectava os grandes Estados do Mediterrâneo oriental e do Oriente Próximo.

O trauma da divisão, portanto, não desapareceu simplesmente quando Avaris caiu. No longo prazo, ele parece ter contribuído para uma nova lógica política: manter possíveis ameaças cada vez mais distantes do coração do Egito. A reunificação abriu caminho para a expansão, e a expansão ajudaria a produzir uma riqueza sem precedentes. O Novo Império começava a nascer não apenas como um Egito novamente unido, mas como um Estado capaz de projetar poder para além de suas fronteiras tradicionais.

Depois de Ahmose I, seu sucessor Amenhotep I governou um país novamente unificado. A atenção do Estado voltou-se não apenas para as fronteiras, mas também para grandes projetos internos e religiosos. Tebas, cidade da dinastia que havia conduzido a resistência contra os hicsos, consolidou-se como um dos principais centros políticos e religiosos do país, enquanto o culto de Amon ganhava uma importância extraordinária. O complexo de Karnak cresceria continuamente durante o Novo Império e se tornaria uma das maiores expressões monumentais da relação entre religião, riqueza e poder real. À medida que as campanhas militares ampliavam a influência egípcia, parte dessa riqueza era convertida em templos, estátuas, obeliscos e monumentos destinados a demonstrar a força dos faraós e de seus deuses.

Ao mesmo tempo, uma mudança profunda acontecia na maneira como esses reis organizavam a própria morte. As grandes pirâmides monumentais que haviam marcado especialmente o Reino Antigo, e em certa medida o Médio Império, deixaram de constituir o principal modelo de sepultamento real. Na região tebana, os faraós passaram a ser enterrados em tumbas escavadas nas montanhas do deserto. O local que se tornaria célebre por receber esses sepultamentos é hoje conhecido como Vale dos Reis.

Determinar quem foi exatamente o primeiro faraó enterrado ali continua sendo difícil. Amenhotep I foi tradicionalmente associado às origens da necrópole e posteriormente seria venerado pelos próprios trabalhadores responsáveis pelas tumbas reais, mas sua tumba não foi identificada de maneira consensual. Por isso, é melhor resistir à tentação de transformar uma hipótese em certeza. O que podemos afirmar com segurança é que, durante a XVIII Dinastia, o Vale dos Reis se consolidou como a principal necrópole dos faraós do Novo Império e permaneceria associado à monarquia egípcia durante séculos.

A própria paisagem parece adequada para aquilo que ali aconteceria. O vale encontra-se cercado por formações rochosas e dominado pela montanha conhecida atualmente como el-Qurn, “o Chifre”, cuja forma aproximadamente piramidal já despertou diversas interpretações. É tentador imaginar que essa semelhança tenha influenciado de maneira decisiva a escolha da região, mas qualquer conclusão religiosa muito específica deve ser tratada com cautela. Mais importante é perceber que a lógica do sepultamento real havia mudado. A tumba podia permanecer escondida dentro das montanhas, distante das áreas mais movimentadas, enquanto o templo funerário dedicado ao culto do faraó era construído separadamente, mais próximo da faixa cultivada do Nilo. O corpo do rei desaparecia dentro da montanha, enquanto sua memória permanecia publicamente cultivada em outro espaço.

Tumba do soldado Ahmose em El-Kab
Autor da foto: https://commons.wikimedia.org/wiki/User:Oltau

Era uma nova maneira de organizar a eternidade.

Mas as tumbas não se escavavam sozinhas. Por trás dos corredores abertos na rocha, das paredes cuidadosamente preparadas, das imagens de deuses, dos textos funerários e dos sarcófagos monumentais havia trabalhadores especializados. Pedreiros, escultores, desenhistas, pintores, escribas e supervisores dedicavam anos de suas vidas à construção dos espaços destinados a garantir a eternidade dos faraós. A paisagem monumental que hoje admiramos no Vale dos Reis não surgiu apenas da vontade de um governante. Ela foi resultado de uma estrutura estatal capaz de reunir recursos, organizar equipes, distribuir alimentos, registrar jornadas de trabalho e manter durante gerações um corpo de especialistas altamente qualificados.

Muitos desses trabalhadores viveram em um lugar que se tornaria um dos sítios arqueológicos mais extraordinários de todo o Egito: Deir el-Medina. O nome pelo qual conhecemos atualmente o assentamento é árabe e está relacionado à ocupação cristã posterior da região. Entre os próprios egípcios, a comunidade podia ser chamada simplesmente de Pa-demi, “a Vila”, enquanto sua designação oficial estava associada a Set-Ma'at, o “Lugar da Verdade”. Os trabalhadores ligados às tumbas reais eram conhecidos por títulos que costumamos traduzir como “Servos no Lugar da Verdade”. Deir el-Medina, a vila dos trabalhadores.

É importante compreender quem eram essas pessoas. Não estamos falando simplesmente de grandes massas de camponeses recrutados ocasionalmente para realizar trabalhos braçais. Deir el-Medina abrigava uma comunidade especializada vinculada diretamente ao Estado. O Metropolitan Museum estima que a equipe responsável pelas tumbas reais normalmente não ultrapassava cerca de sessenta trabalhadores, embora o assentamento também incluísse suas famílias e outras pessoas relacionadas à comunidade. O vilarejo era murado e estava localizado relativamente próximo tanto do Vale dos Reis quanto do Vale das Rainhas. Ali, gerações inteiras viveram em função de um dos projetos mais importantes da monarquia egípcia: construir, decorar e preservar as moradas funerárias dos reis.

O trabalho era cuidadosamente organizado. As equipes podiam ser divididas em grupos, supervisionadas por capatazes e acompanhadas por escribas encarregados de registrar atividades, ausências, pagamentos e distribuição de recursos. E é justamente a existência desses registros que transforma Deir el-Medina em algo muito maior do que um simples “vilarejo dos construtores de tumbas”. Enquanto templos e monumentos geralmente preservam aquilo que faraós e elites desejavam transmitir para o futuro, os documentos dessa comunidade nos permitem encontrar um Egito muito mais cotidiano.

Uma das razões para isso é a enorme quantidade de ostraca encontrada na região. Ostraca são fragmentos de cerâmica ou lascas de calcário que podiam ser utilizados como superfícies para escrita e desenho. Como o papiro era relativamente valioso, esses materiais mais simples serviam para contas, exercícios de escrita, cartas, registros administrativos, esboços e mensagens cotidianas. O Petrie Museum, da University College London, preserva dezenas desses documentos provenientes de Deir el-Medina, e graças a esse conjunto podemos observar aspectos da vida egípcia que dificilmente seriam reconstruídos apenas a partir das inscrições monumentais.

De repente, encontramos registros de trabalhadores que faltaram ao serviço, discussões entre vizinhos, questões familiares, pagamentos, correspondências, textos religiosos, documentos jurídicos, exercícios escolares e rascunhos. Até poemas e canções de amor chegaram até nós através de manuscritos associados ao universo desses artesãos. É nesse momento que algo muda profundamente na maneira como enxergamos o Egito Antigo. Por muito tempo, o imaginário moderno transformou aquela civilização em um cenário quase exclusivamente habitado por faraós, rainhas, sacerdotes e deuses. Deir el-Medina quebra essa ilusão porque devolve nomes, preocupações e conflitos a pessoas que não usavam coroas.

Conhecemos, por exemplo, Sennedjem, artesão que viveu durante a XIX Dinastia e trabalhou nas tumbas reais. Sua própria tumba, TT1, encontrada em Deir el-Medina, foi preservada de maneira extraordinária. Objetos pertencentes a ele e a sua família encontram-se hoje em diferentes coleções, e o Metropolitan Museum conserva algumas dessas peças, incluindo estatuetas funerárias. Nas inscrições, Sennedjem aparece como um “Servo no Lugar da Verdade”, um título que o conecta diretamente ao trabalho realizado nas necrópoles reais. Conhecemos também Qen, escultor responsável pela decoração das tumbas. Uma estela proveniente de sua sepultura registra títulos como “escultor de Amon no Lugar da Verdade” e “escultor de Amon em Karnak”.

Esses homens não são apenas nomes em uma lista de trabalhadores. Tinham famílias, casas, profissões, crenças, conflitos, propriedades e preocupações. Alguns deixaram textos; outros, objetos; muitos aparecem nas relações familiares preservadas pela arqueologia. Aos poucos, aquilo que inicialmente parecia ser apenas uma vila criada para fornecer mão de obra às tumbas reais revela-se como uma das mais impressionantes janelas para a história social do mundo antigo. Talvez poucos sítios permitam acompanhar uma comunidade específica durante tanto tempo e com tamanho nível de detalhe. Em Deir el-Medina, podemos estudar relações familiares, condições de trabalho, práticas religiosas, propriedade, alfabetização, conflitos sociais e até formas de humor.

E há ainda uma ironia histórica extraordinária. A comunidade criada para servir a um dos Estados mais poderosos do mundo antigo acabaria preservando, séculos depois, os sinais das dificuldades enfrentadas por esse mesmo Estado. Já no final do Novo Império, trabalhadores responsáveis pelas tumbas reais interromperam suas atividades porque os pagamentos em grãos estavam atrasados. O episódio, documentado em papiro, tornou-se conhecido como aquilo que frequentemente é descrito como a primeira greve de trabalhadores registrada pela história. O termo moderno precisa ser utilizado com algum cuidado, evidentemente, mas o acontecimento revela algo fundamental: mesmo os trabalhadores ligados a um projeto tão importante quanto as tumbas faraônicas dependiam de uma estrutura econômica que, em determinados momentos, simplesmente deixava de funcionar como deveria.

Essa história pertence a uma fase posterior do Novo Império, mas ajuda a perceber por que acompanhar Deir el-Medina é tão interessante. O vilarejo atravessa séculos de história egípcia. Ele nasceu dentro de um sistema estatal poderoso, enriquecido pelas campanhas militares e pela capacidade administrativa do Novo Império, e permaneceu existindo tempo suficiente para testemunhar também as dificuldades desse sistema. Nas paredes, cartas e registros de seus habitantes, podemos acompanhar não apenas a magnificência do Egito, mas as tensões escondidas por trás dela.

Quando observamos o Vale dos Reis, nossa atenção naturalmente se volta para os faraós. Tutancâmon, Seti I, Ramsés II e tantos outros nomes continuam conhecidos milhares de anos depois. Os homens que cavaram as câmaras, alinharam as paredes, prepararam o gesso, desenharam as figuras, esculpiram os relevos e pintaram os deuses raramente recebem a mesma atenção. Mas a arqueologia nos permite inverter esse olhar. A magnificência do poder faraônico existia porque havia uma sociedade inteira capaz de sustentá-la. Um império não é construído apenas por seus reis: precisa de soldados para expandir fronteiras, escribas para registrar impostos, barqueiros para transportar recursos, agricultores para produzir alimentos, sacerdotes para manter os cultos, artesãos para construir monumentos e administradores para coordenar tudo isso.

As tumbas do Vale dos Reis são, nesse sentido, simultaneamente monumentos ao faraó e testemunhos do trabalho humano que sustentava o Estado faraônico. E talvez seja justamente essa a conexão mais interessante entre as duas partes aparentemente distantes desta história. Começamos em um campo de batalha. Seqenenre morre violentamente. Kamose desafia o poder de Avaris. Ahmose continua a guerra, derrota os hicsos e reunifica o Egito. As fronteiras avançam, o Estado se reorganiza, a riqueza cresce e uma nova política de expansão transforma o país em uma potência imperial. Tebas se fortalece, Amon assume uma posição central na ideologia real e as montanhas do deserto passam a esconder as tumbas dos faraós.

Shabti de Sennedjem, XIX Dinastia, c. 1290–1224 a.C. Sennedjem era um dos artesãos de Deir el-Medina responsáveis pelo trabalho nas necrópoles reais e carregava o título de “Servo no Lugar da Verdade”. A estatueta foi encontrada em sua tumba, TT1.

Fonte: The Metropolitan Museum of Art, domínio público.

Mas terminamos dentro de uma pequena vila.

Ali, longe das grandes cenas de batalha, encontramos trabalhadores escrevendo cartas em pedaços de cerâmica, pais preocupados com seus filhos, artesãos registrando ausências, escribas anotando entregas de grãos, pessoas resolvendo disputas, fazendo orações e reclamando de problemas cotidianos. Homens e mulheres que, enquanto levavam vidas surpreendentemente familiares aos nossos olhos, participavam de uma tarefa extraordinária: construir a eternidade dos faraós.

Essa mudança de escala é fundamental para compreendermos a história. O Novo Império foi uma era de expansão militar, riqueza extraordinária e monumentalidade sem precedentes, mas sua grandiosidade não foi produzida apenas pelos homens e mulheres cujos nomes apareciam dentro de cartuchos reais. Ela dependia de milhares de pessoas cujos nomes raramente aparecem nos manuais. A guerra contra os hicsos criou as condições políticas para uma nova fase de centralização; a XVIII Dinastia transformou a vitória militar em uma estrutura de poder cada vez mais ampla; Tebas ganhou enorme importância; Amon tornou-se uma divindade central para a monarquia; e o Vale dos Reis passou a receber os mortos reais. Nas proximidades, entretanto, uma comunidade inteira precisava existir para transformar essas ambições em pedra, tinta e memória.

Talvez seja justamente por isso que Deir el-Medina seja tão importante.

As paredes das tumbas nos mostram como os faraós queriam ser lembrados. Os documentos deixados pelos trabalhadores nos mostram quem tornou essa memória possível.

Ruínas de Deir el-Medina, na margem oeste de Tebas. A vila abrigava os artesãos e suas famílias responsáveis por escavar e decorar as tumbas reais do Novo Império. Suas casas, ruas e documentos preservados permitem reconstruir aspectos raros da vida cotidiana no Egito faraônico.

Fotografia de: Institute for the Study of the Ancient World, New York University.

Fontes escritas

Fontes escritas em português

Fontes audiovisuais

Fonte audiovisual em português

Fontes primárias e acervos

Fonte visual

Segunda Estela de Kamose
tradução para o português*

“...Uma mensagem miserável chega do interior de tua cidade. Serás expulso à força, junto com teu exército. Tuas palavras são insignificantes: fazes de mim um simples chefe, enquanto te consideras governante e pretendes reclamar [] para ti aquilo que foi tomado. Por isso virá tua queda! Tua retaguarda conhecerá a desgraça quando meu exército estiver atrás de ti. As mulheres de Avaris não conceberão, nem seus corações se abrirão de desejo [] quando ouvirem o grito de guerra de meu exército.”

Dirigi-me então a Per-djed-qen, “a Casa do Arrogante”, com o coração cheio de alegria, pois fiz [] Apepi contemplar um momento de miséria: o chefe do Retjenu, fraco de braços, que imagina em seu coração grandes feitos que jamais se realizarão.

Cheguei a Inyt-[]-net-khenet e atravessei as águas em sua direção. Organizei a frota, navio após navio, colocando-me à frente, junto ao remo de direção, enquanto meus [6] guerreiros de elite voavam sobre o rio como falcões. Meu navio dourado seguia à frente, e eu, como um falcão divino, avançava diante da frota. [] Fiz o poderoso navio-mek patrulhar os limites das terras cultivadas, enquanto os demais navios vinham atrás, como aves de rapina devastando [] o território de Avaris.

Vi as mulheres de Apepi no alto de seu palácio, olhando pelas janelas em direção à margem. Permaneceram imóveis ao me ver, [] espiando por entre as aberturas das muralhas como pequenos animais escondidos em suas tocas. Como eu havia dito: [] “Apepi é um fugitivo!”

Vê! Eu cheguei! Terei sucesso, pois aquilo que resta do território está em minhas mãos e minha causa é justa. Enquanto o poderoso Amon perdurar, não te deixarei em paz e não permitirei que [] caminhes pelas terras cultivadas sem que eu esteja sobre ti.

Teus desejos serão destruídos, miserável asiático!

Vê! Beberei o vinho de teus vinhedos, [] preparado para mim pelos asiáticos que eu capturar. Destruirei teu palácio, derrubarei tuas árvores, levarei tuas mulheres para os porões dos navios [] e tomarei tua tropa de carros de guerra. Não deixarei sequer uma prancha dos centenas de navios de cedro novo carregados de ouro, lápis-lazúli, prata, turquesa, [] incontáveis machados de bronze, óleo de moringa, incenso, gordura, mel e madeiras preciosas, [] assim como todos os valiosos produtos do Retjenu. Tudo tomarei.

Nada deixarei em Avaris. Ela ficará vazia, e o asiático perecerá. [] Teus desejos serão destruídos, miserável asiático!

Tu, que dizes: “Sou um senhor sem igual desde Hermópolis até Gebelein, governando Avaris [] entre os dois rios.” Eu a deixarei vazia, sem habitantes, depois de destruir suas cidades. Incendiarei suas residências, que se transformarão em ruínas [] para sempre, por causa da destruição que estes inimigos permitiram nesta parte do Egito ao atenderem ao chamado dos asiáticos e abandonarem o Egito, sua senhora.

Interceptei [] a mensagem de Apepi no caminho do oásis, enquanto ela seguia para o sul, em direção a Kush. Encontrei nela estas palavras, escritas pela mão do governante de Avaris:

[] “Aa-user-ra, Filho de Ra, Apepi, envia saudações a meu filho, o governante de Kush. Por que te estabeleceste como governante sem me informar? Vês [] o que o Egito fez contra mim? O governante que nele está, Kamose, o Valente, dotado de vida, invadiu meus territórios, embora eu não o tenha atacado como [] ele fez contigo. Ele escolheu nossas duas terras para fazê-las sofrer — a minha e a tua — e as devastou.

Vem! Navega para o norte! Não temas! [] Vê, ele está aqui em minhas mãos. Não há ninguém nesta parte do Egito que possa se levantar contra ti. Não permitirei que ele passe até que chegues. Então dividiremos [] entre nós as cidades desta parte do Egito, e Khent-hen-nefer se alegrará.”

Wadj-kheper-Ra, o Valente, dotado de vida, aquele que domina os acontecimentos, pune as transgressões e derrota seus inimigos, [] diz:

“Eu tomei posse dos desertos, das Duas Terras e dos rios. Ninguém encontrou um caminho para me derrubar. Não me cansei durante minha campanha e jamais desviei [] meu rosto diante do nortista. Ele já me temia enquanto eu ainda navegava para o norte, antes mesmo de combatermos e antes que eu chegasse até ele. Ele viu o fogo de minha força e enviou uma mensagem a Kush [] buscando sua proteção.

Eu a interceptei no caminho e não permiti que chegasse ao destino. Fiz com que fosse confiscada e depois devolvida, deixando-a nas terras a leste [] de Afroditópolis. Minha força penetrou em seu coração e seu corpo perdeu o vigor quando seu mensageiro lhe contou o que eu havia feito contra o nomo de Cinópolis, [] que ele havia transformado em sua propriedade.

Enviei minha vitoriosa tropa de arqueiros, que já marchava pelo caminho, para destruir o oásis de Bahariya, enquanto eu permanecia em Saka para impedir que algum inimigo surgisse [] em minha retaguarda.

Então naveguei para o sul, confiante e com o coração alegre, depois de destruir todos os adversários que encontrei pelo caminho. Como é belo o retorno rio acima do [] governante, vivo, próspero e saudável, com seu exército à sua frente! Não houve perdas entre eles; nenhum homem procurou por seu companheiro e nenhum coração chorou.

Cheguei à terra da Cidade — Tebas — durante a estação [] da inundação. Todos os rostos estavam radiantes, a terra estava em abundância, as margens brilhavam e o distrito de Tebas celebrava. Homens e mulheres vieram me ver, [] cada mulher abraçando seu companheiro e nenhum rosto coberto de lágrimas.

Purificação para Amon no interior do templo; purificação para Amon no interior do templo. Ali, naquele lugar, [] são oferecidas coisas boas, porque Amon entregou a espada curva ao seu filho, o rei eterno Wadj-kheper-Ra, Filho de Ra, Kamose, o Valente, dotado de vida, [] aquele que domina o Sul e derruba o Norte, aquele que conquista esta terra pela vitória, a quem foram concedidas vida, estabilidade e poder. Seu coração está alegre junto de seu ka, como Ra, eternamente.

[] Decreto de Sua Majestade ao membro da elite, líder das ações, guardião dos assuntos privados do palácio, chefe de toda a terra, portador do selo real, líder das Duas Terras, supervisor dos companheiros do rei, [] supervisor das coisas seladas, User-Neshemet:

‘Faz com que tudo aquilo que Minha Majestade realizou em vitória seja registrado em uma estela, que deverá permanecer no templo de Karnak, [] no distrito de Tebas, por toda a eternidade.’

Então ele respondeu diante de Sua Majestade:

‘Farei tudo de acordo com aquilo que me foi ordenado, para obter o favor do rei.’”

*traduzido do egípcio utilizando inteligência artificial (LLM)

Foto da Estela, por Kurohito - Trabajo propio, CC BY-SA 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=8454238

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