Quando o El Niño se torna extremo: clima, aquecimento global e riscos para o Brasil
O chamado “Super El Niño” não é um fenômeno novo, mas um episódio extremo de uma dinâmica natural do clima. Em um planeta mais quente, porém, seus impactos podem ganhar novas dimensões. Entender essa interação é essencial para prever riscos e melhorar a adaptação.
MEIO AMBIENTE


Imagem ilustrativa: Foto de satélite/Divulgação NOAA (2015)
Poucos fenômenos climáticos ganharam tanta presença no cotidiano brasileiro quanto o El Niño. Seu nome aparece associado a enchentes no Sul, estiagens na Amazônia, calor excepcional no Sudeste e perdas na agricultura. Quando um episódio particularmente intenso começa a se formar no Pacífico, surge também uma expressão que ganhou espaço nos jornais e nas redes sociais: “Super El Niño”. A expressão é eficiente para comunicar a ideia de excepcionalidade, mas, do ponto de vista científico, exige certa cautela. O El Niño não é uma anomalia recente criada pelo aquecimento global, e sim parte da dinâmica natural do sistema climático, presente muito antes da industrialização. A questão contemporânea é diferente: esses eventos agora acontecem sobre um planeta cuja temperatura média aumentou e cujos oceanos acumulam mais calor.
É justamente desse encontro entre variabilidade natural e mudança climática que surge uma das perguntas mais interessantes da climatologia atual: o aquecimento global está modificando os grandes eventos de El Niño? A resposta não pode ser reduzida a um simples “sim” ou “não”. Os episódios de 1982–1983, 1997–1998 e 2015–2016 ajudam a mostrar por quê. Todos alcançaram intensidade excepcional, mas nenhum deles foi uma repetição exata do anterior. Houve diferenças na localização das águas mais quentes, na resposta da atmosfera, na distribuição das chuvas sobre o Pacífico e, consequentemente, nos efeitos observados em outras partes do planeta. Essa diversidade é parte da dificuldade de estudar o fenômeno e, ao mesmo tempo, aquilo que o torna especialmente importante para a pesquisa climática.
Um fenômeno que começa no Pacífico, mas não termina nele
Para compreender por que os efeitos do El Niño alcançam o Brasil, é necessário olhar primeiro para o Pacífico tropical. Em condições consideradas normais, os ventos alísios sopram de leste para oeste sobre a região equatorial e contribuem para concentrar águas superficiais mais quentes nas proximidades da Indonésia e da Austrália. Do outro lado do oceano, próximo à América do Sul, a subida de águas profundas e relativamente frias ajuda a manter temperaturas menores na superfície. Essa organização, porém, não é permanente. Durante um episódio de El Niño, os ventos alísios enfraquecem, a massa de água aquecida deixa de permanecer tão concentrada no oeste e passa a ocupar uma área maior do Pacífico central e oriental. Ao mesmo tempo, a termoclina, zona de transição entre as águas superficiais aquecidas e as águas profundas mais frias, também se reorganiza.
A atmosfera responde a essas alterações no oceano. A chamada Circulação de Walker, responsável por uma parcela importante do movimento atmosférico sobre o Pacífico tropical, modifica-se junto com a distribuição das temperaturas oceânicas. Regiões onde normalmente há grande formação de nuvens e precipitação podem perder atividade, enquanto outras passam a apresentar maior convecção. Essa interação é essencial para compreender o fenômeno, porque reduzir o El Niño à ideia de que “o oceano ficou mais quente” significa observar apenas parte do processo. Para que um evento se estabeleça plenamente, o aquecimento oceânico precisa estar acompanhado de uma resposta atmosférica coerente. Por isso, os centros de monitoramento observam simultaneamente temperaturas da superfície do mar, ventos, pressão atmosférica, precipitação e condições abaixo da superfície do Pacífico.
Mudanças dessa dimensão não permanecem restritas à região onde se originam. As alterações na circulação atmosférica podem influenciar áreas muito distantes por meio das chamadas teleconexões climáticas, que conectam anomalias no Pacífico tropical a mudanças de temperatura e precipitação em diferentes partes do mundo. É dessa maneira que águas excepcionalmente quentes no Pacífico equatorial podem alterar probabilidades de chuva a milhares de quilômetros de distância. O Brasil está inserido nessa rede de influências, mas isso não significa que todos os eventos meteorológicos ocorridos durante um El Niño sejam provocados diretamente por ele. O que o fenômeno faz é modificar a circulação atmosférica de grande escala e, com isso, favorecer ou dificultar determinados padrões climáticos.


À esquerda, o funcionamento da Célula de Circulação Walker em condições normais. À direita, a célula sob a influência do El Niño. Fonte: CPTEC/INPE
“Super El Niño”: uma expressão popular para um problema mais complexo
A expressão “Super El Niño” pode transmitir a ideia de que existe uma categoria precisa, como se houvesse um limite definido a partir do qual um El Niño comum se transformasse em algo diferente. Na prática, a classificação científica é mais complexa. A NOAA acompanha o comportamento do fenômeno utilizando, entre outros indicadores, as anomalias de temperatura da região Niño 3.4, localizada no Pacífico equatorial central, e trabalha com categorias como eventos fracos, moderados, fortes ou muito fortes. “Super El Niño”, portanto, não corresponde a uma categoria oficial independente dentro desse sistema de classificação.
Na literatura científica aparece com maior frequência a expressão extreme El Niño, ou El Niño extremo. Mesmo nesse caso, contudo, a intensidade não é definida exclusivamente por uma temperatura específica. Essa diferença é importante porque, se apenas a temperatura superficial fosse observada, alguns dos maiores eventos registrados poderiam parecer muito semelhantes. Quando outros elementos são considerados, as diferenças tornam-se mais evidentes. O El Niño de 2015–2016, por exemplo, atingiu valores comparáveis aos grandes episódios de 1982–1983 e 1997–1998 em regiões importantes do Pacífico, mas sua evolução espacial e a resposta da atmosfera apresentaram características próprias. O estudo de Agus Santoso e colaboradores, publicado na Reviews of Geophysics, utiliza justamente essa comparação para demonstrar que eventos extremos de ENOS não podem ser compreendidos por meio de um único índice.
Há ainda uma dificuldade que interfere diretamente nesse tipo de análise: o número de episódios extremos observados com instrumentos modernos é relativamente pequeno. O clima da Terra possui uma longa história, enquanto as observações detalhadas do Pacífico por satélites, redes de boias e outros instrumentos modernos se concentram principalmente nas últimas décadas. Reconstruções paleoclimáticas permitem ampliar essa janela temporal, mas não oferecem exatamente o mesmo nível de detalhamento das medições atuais. Assim, quando os pesquisadores procuram determinar se os El Niños extremos estão se tornando mais frequentes, precisam trabalhar com uma amostra limitada de eventos excepcionalmente intensos. Isso não impede o desenvolvimento de hipóteses ou conclusões, mas exige maior cuidado na interpretação dos resultados.


Previsão probabilística de intensidade do El Niño nas categorias fraca, moderada, forte e muito forte, emitida pelo CPC/NOAA no início de junho de 2026.
Fonte: Nota Técnica - EL NIÑO 2026 (INPE, INMET, Funceme e CENSIPAM)
O Brasil não experimenta um único El Niño
Falar nos “efeitos do El Niño no Brasil” pode produzir a impressão de que todo o território responde de maneira semelhante ao fenômeno. Em um país de dimensões continentais, isso não acontece. A circulação atmosférica, o relevo, a vegetação e as próprias diferenças climáticas regionais fazem com que uma mesma alteração de grande escala possa resultar em excesso de precipitação em uma área e diminuição das chuvas em outra. Por isso, a análise precisa considerar as características de cada região e também o período do ano em que o episódio ocorre.
Historicamente, o Sul do Brasil apresenta uma relação relativamente consistente entre episódios de El Niño e aumento da precipitação em determinados períodos, especialmente durante a primavera. Quando outros fatores atmosféricos favorecem a permanência de sistemas de chuva sobre a região, aumentam os riscos de inundações, cheias de rios e movimentos de massa. No Norte e em partes do Nordeste, a situação pode ser bastante diferente. Em setores da Amazônia, sobretudo no norte e no leste da região, o fenômeno pode contribuir para uma redução das chuvas, afetando os níveis dos rios, a navegação, o abastecimento de comunidades e as condições ambientais relacionadas aos incêndios florestais.
No Sudeste e no Centro-Oeste, a relação entre El Niño e precipitação tende a ser menos uniforme, mas as temperaturas podem ganhar importância. Dependendo da intensidade do episódio e da época do ano, essas regiões podem experimentar períodos mais quentes e invernos menos frios. O ponto central, entretanto, é que nenhuma dessas relações deve ser interpretada como uma regra absoluta. A presença do El Niño não determina automaticamente que haverá enchente no Sul, seca na Amazônia ou calor extremo no Sudeste. O fenômeno modifica probabilidades, e essa distinção é fundamental para evitar explicações simplistas sobre eventos meteorológicos complexos.
Essa diferença também ajuda a compreender por que não é adequado atribuir um desastre exclusivamente ao El Niño. Uma grande inundação, por exemplo, depende não apenas da circulação atmosférica de grande escala, mas também da intensidade e duração das chuvas, das características das bacias hidrográficas, da condição do solo, da urbanização, dos sistemas de drenagem e da ocupação de áreas de risco. O fenômeno climático pode representar parte do perigo, mas o desastre resulta da combinação entre esse perigo, a exposição das populações e a vulnerabilidade das áreas atingidas. Assim, o estudo do El Niño também se aproxima de discussões sobre planejamento urbano, defesa civil e adaptação climática.


Impactos do fenômeno El Niño na América do Sul para os períodos de verão (dezembro a fevereiro) e inverno (junho a agosto) 2026 Fonte: BTR1/CPTEC/INPE
Onde entra o aquecimento global?
A relação entre El Niño e aquecimento global é uma das partes mais delicadas dessa discussão. À primeira vista, poderia parecer lógico supor que, se o planeta está aquecendo, os episódios de El Niño também necessariamente se tornariam mais quentes e mais fortes. A dinâmica climática, entretanto, não funciona de forma tão linear. O ENOS apresenta grande variabilidade natural, e dois eventos podem diferir consideravelmente mesmo quando ocorrem com poucos anos de intervalo. Além disso, oscilações que atuam durante décadas podem modificar sua frequência e suas características, dificultando separar o comportamento natural do fenômeno das mudanças relacionadas ao aumento das concentrações de gases de efeito estufa.
Por essa razão, a afirmação de que “as mudanças climáticas estão deixando todos os El Niños mais fortes” vai além do que as evidências atualmente permitem concluir. Isso não significa, contudo, que o aquecimento global seja irrelevante para a evolução do fenômeno. Estudos recentes indicam que um planeta mais quente pode modificar alguns dos mecanismos envolvidos na formação e na intensidade dos eventos extremos de ENOS. Uma pesquisa publicada por Jo e Ham em 2023 na Nature Communications, por exemplo, investigou de que maneira regiões oceânicas situadas fora do Pacífico equatorial participam do desenvolvimento do fenômeno. Os resultados dos modelos indicaram que o aquecimento provocado pelo aumento de gases de efeito estufa pode fortalecer a atuação conjunta de mecanismos capazes de favorecer episódios extremos de El Niño em cenários futuros.
Outros estudos procuram separar a influência humana da própria variabilidade interna do sistema climático, o que permanece como um dos desafios centrais dessa área de pesquisa. Existe, porém, uma questão importante que independe de saber se cada futuro El Niño será ou não mais intenso: o planeta sobre o qual esses fenômenos atuam já apresenta condições diferentes das observadas durante boa parte do século XX. A temperatura média global é maior, os oceanos acumulam mais calor e diversos extremos ocorrem sobre uma linha de base climática diferente. Por isso, um El Niño não precisa necessariamente quebrar todos os recordes anteriores para produzir consequências relevantes. El Niño e aquecimento global não são o mesmo fenômeno e um não criou o outro, mas os dois processos podem ocorrer simultaneamente e interagir.
2026: quando a previsão começou a mudar de tom
O episódio de 2026–2027 oferece uma oportunidade particularmente interessante para acompanhar essa interação. Nos primeiros meses de 2026, ainda havia considerável cautela quanto à intensidade que o evento poderia alcançar. Em abril/maio de 2026, análises divulgadas pelo INPE já identificavam sinais favoráveis à formação do El Niño, mas destacavam que não seria possível determinar sua força apenas observando o aquecimento das águas do Pacífico. Era necessário verificar também se a atmosfera responderia de maneira compatível, reforçando novamente a ideia de que o ENOS depende do acoplamento entre oceano e atmosfera.
Com o avanço dos meses, o cenário se tornou mais definido. INPE, INMET, FUNCEME, CENSIPAM e outras instituições brasileiras passaram a acompanhar conjuntamente a evolução do fenômeno e, em junho, as previsões já apontavam elevada probabilidade de permanência das condições de El Niño durante o segundo semestre de 2026, com possibilidade de continuidade até 2027. As observações seguintes reforçaram essa tendência. No boletim publicado em 10 de setembro de 2026 pelo Climate Prediction Center da NOAA, a região Niño 3.4 apresentava anomalia de temperatura próxima de +1,8 °C, enquanto outras áreas do Pacífico registravam valores ainda mais elevados.
Mais relevante do que observar apenas esse número era examinar o conjunto das condições oceânicas e atmosféricas. Os ventos já apresentavam alterações, havia mudanças na distribuição da convecção tropical e o aquecimento também estava presente abaixo da superfície do oceano. Esses sinais indicavam um acoplamento consistente entre oceano e atmosfera e levaram a NOAA a elevar a avaliação da intensidade esperada para o evento. Naquele momento, a instituição estimava probabilidade superior a 90% de ocorrência de um El Niño muito forte durante o final de 2026 e o inverno do Hemisfério Norte de 2026–2027.
Para o trimestre de outubro a dezembro, os modelos indicavam ainda 75% de probabilidade de o índice utilizado pela NOAA alcançar valores superiores aos dos episódios anteriores da série iniciada em 1950. Essa informação, entretanto, precisa ser interpretada como previsão e não como resultado já observado. Uma probabilidade de 75% significa que, considerando as condições e os modelos disponíveis em setembro, aquele cenário era considerado bastante provável. Não significa que o fenômeno já tivesse atingido sua intensidade máxima ou que um novo recorde estivesse confirmado. A distinção é relevante porque previsões climáticas trabalham com probabilidades e podem ser ajustadas à medida que novos dados são incorporados.
Observar melhor mudou a maneira de lidar com o fenômeno
Os El Niños ocorridos há séculos se desenvolveram sem que as sociedades tivessem condições de acompanhar, em tempo quase real, as mudanças que aconteciam no Pacífico. Hoje, o cenário é radicalmente diferente. Satélites medem temperaturas oceânicas, boias registram condições tanto na superfície quanto em profundidade, estações meteorológicas acompanham alterações atmosféricas e modelos computacionais transformam enormes volumes de dados em projeções. Esse avanço não permite determinar com meses de antecedência em qual cidade ocorrerá uma inundação ou qual região enfrentará uma onda de calor em determinado dia, mas oferece informações fundamentais para avaliar riscos.
A previsão sazonal trabalha justamente com essas probabilidades. Se os modelos apontam maior possibilidade de estiagem em determinada região, gestores podem acompanhar reservatórios com maior atenção, setores agrícolas podem rever riscos para plantio e colheita e sistemas de saúde podem se preparar para períodos de calor excepcional. Quando o sinal aponta para precipitação acima da média, rios, barragens, encostas, drenagem urbana e planos de emergência passam a exigir outro tipo de monitoramento. Foi com essa perspectiva que diferentes instituições brasileiras passaram a reunir informações no Painel El Niño 2026–2027, transformando o acompanhamento climático em instrumento de planejamento e gestão pública.
Essa articulação também mostra que o estudo do fenômeno ultrapassa a meteorologia. Uma alteração iniciada no Pacífico pode interferir, direta ou indiretamente, na agricultura, na geração de energia, no abastecimento de água, na navegação, na saúde pública e nos sistemas de defesa civil brasileiros. Nesse sentido, a relevância de prever o El Niño não está em anunciar antecipadamente um desastre inevitável, mas em oferecer tempo e informação para que diferentes setores possam se preparar para condições potencialmente desfavoráveis.
Talvez o “super” seja a parte menos importante da história
Existe uma atração natural pelos recordes, e episódios intensos costumam provocar comparações imediatas entre diferentes anos. Perguntar qual foi o El Niño mais forte, se 1997–1998 superou 1982–1983, se 2015–2016 apresentou intensidade semelhante ou se 2026–2027 poderá ultrapassar todos eles são questões legítimas, mas não necessariamente representam a parte mais relevante do problema científico. Os grandes episódios funcionam como verdadeiros experimentos naturais, pois colocam o sistema oceano-atmosfera sob condições incomuns e permitem observar mecanismos que aparecem de maneira menos evidente durante eventos moderados.
Foi dessa maneira que os episódios de 1982–1983 e 1997–1998 ampliaram o conhecimento sobre o ENOS, enquanto 2015–2016 trouxe um novo conjunto de observações e demonstrou que um evento extremamente intenso não precisa reproduzir exatamente o comportamento de seus antecessores. O episódio de 2026–2027 acrescenta agora outra oportunidade de comparação, com uma diferença particularmente importante: ele ocorre em um momento no qual o planeta apresenta condições térmicas distintas das existentes nos grandes El Niños do final do século XX e, ao mesmo tempo, dispõe de uma rede de observação muito mais sofisticada.
Por esse motivo, o valor científico do episódio não depende exclusivamente de saber se determinado índice ultrapassará um recorde. A questão mais relevante é compreender como um El Niño excepcional se comporta em um clima que também está mudando. Para responder a isso será necessário comparar o que os modelos previram com o que o oceano realmente apresentou, observar como a atmosfera respondeu, acompanhar os efeitos nas diferentes regiões do planeta e tentar separar aquilo que pertence à variabilidade natural do ENOS daquilo que pode estar relacionado às transformações do clima global. Esse tipo de análise não se encerra quando o fenômeno perde intensidade; ela depende de estudos posteriores, comparação de dados e revisão das hipóteses formuladas durante o próprio evento.
O El Niño, portanto, não é uma novidade climática criada pelo aquecimento global, assim como o chamado “Super El Niño” não representa um fenômeno inteiramente novo. O que mudou foi o contexto no qual esses eventos ocorrem e, ao mesmo tempo, nossa capacidade de observá-los. Se no passado o principal desafio era compreender por que as águas do Pacífico se aqueciam periodicamente, hoje a pesquisa procura responder questões mais amplas: por que determinados episódios se tornam extremos, de que maneira a mudança climática pode interferir nessa dinâmica e até que ponto o conhecimento produzido pela climatologia pode reduzir os riscos associados aos próximos eventos. Estudar o El Niño, nesse sentido, também significa investigar como um fenômeno natural conhecido há muito tempo se comporta em um sistema climático que passa por transformações cada vez mais evidentes.
Da previsão à prevenção: o papel dos governos brasileiros
Conhecer com antecedência a formação de um El Niño intenso tem pouco valor se essa informação não for transformada em planejamento. Os próprios boletins produzidos conjuntamente por INPE, INMET, CEMADEN, ANA, Serviço Geológico do Brasil e Defesa Civil mostram que os riscos não são os mesmos em todo o território: enquanto algumas áreas podem enfrentar chuvas acima da média, enchentes e deslizamentos, outras podem sofrer com estiagens, ondas de calor, queimadas e redução da disponibilidade de água. A previsão climática, portanto, oferece aos governos federal, estaduais e municipais uma oportunidade de agir antes que o evento extremo se transforme em desastre, direcionando recursos de acordo com as vulnerabilidades de cada região.
Essa preparação envolve muito mais do que responder às emergências depois que elas acontecem. Investimentos em drenagem urbana, contenção de encostas, manutenção de rios e sistemas de escoamento, monitoramento de áreas de risco, sistemas de alerta, estrutura da Defesa Civil, planejamento dos recursos hídricos e prevenção de incêndios podem reduzir a exposição das cidades aos impactos associados ao fenômeno. Da mesma forma, municípios localizados em áreas sujeitas a enchentes precisam de estratégias diferentes daqueles que enfrentam maior risco de seca e calor extremo. O CEMADEN já aponta para essa diversidade de ameaças no episódio de 2026–2027, com maior risco de chuvas extremas, enchentes e deslizamentos no Sul e possibilidade de agravamento da seca, incêndios e ondas de calor em outras regiões do país.
O El Niño não pode ser impedido, pois faz parte da variabilidade natural do clima. O tamanho de seus impactos sobre as cidades brasileiras, entretanto, não depende apenas da intensidade do fenômeno. Ele também está relacionado à qualidade da infraestrutura, à ocupação do território, à capacidade de monitoramento e à preparação existente antes da ocorrência dos eventos extremos. Nesse sentido, utilizar as previsões científicas para orientar investimentos públicos e definir prioridades é uma das formas mais concretas de transformar conhecimento climático em prevenção. Quanto maior for a capacidade de articulação entre União, estados e municípios, instituições científicas e sistemas de Defesa Civil, maiores serão as possibilidades de reduzir perdas humanas, sociais e econômicas quando os efeitos do El Niño chegarem às diferentes regiões do Brasil.
Eleições de 2026 e o futuro da prevenção climática no Brasil
As eleições de 2026 também oferecem à população brasileira a oportunidade de discutir que lugar a crise climática, a ciência e a prevenção de desastres devem ocupar nas prioridades do Estado. Em 4 de outubro serão escolhidos presidente da República, governadores, senadores e deputados federais, estaduais e distritais, cargos que participam diretamente da definição de orçamentos, leis, investimentos em infraestrutura, políticas ambientais e estratégias nacionais e regionais de adaptação. Diante de fenômenos como o El Niño, portanto, o voto também pode ser entendido como uma oportunidade de examinar quais propostas existem para transformar alertas científicos em políticas permanentes de prevenção, em vez de concentrar recursos apenas na reconstrução depois das tragédias.
Essa discussão ganha importância quando se observa a situação das cidades brasileiras. Pesquisa divulgada pelo Cemaden em 2026 mostrou que, entre mais de dois mil municípios considerados prioritários por apresentarem riscos de deslizamentos e inundações, 75% possuíam menos da metade dos instrumentos de planejamento e mapeamento considerados necessários para a gestão de riscos, enquanto 91% ainda não dispunham de plano de obras para redução desses riscos. Ao mesmo tempo, iniciativas como o AdaptaCidades procuram fortalecer estados e municípios na elaboração de estratégias locais de adaptação, e o Plano Clima Adaptação – Cidades reconhece que as consequências da mudança climática não atingem todos os territórios e grupos sociais da mesma maneira. Prevenção climática, nesse sentido, envolve também discutir desigualdade urbana: enchentes, deslizamentos, falta de água e calor extremo tendem a produzir consequências especialmente graves onde infraestrutura, serviços públicos e capacidade de resposta são mais frágeis.
É nesse ponto que a participação popular ultrapassa o simples ato de comparecer às urnas. Antes da eleição, cidadãos podem acompanhar programas de governo, propostas orçamentárias e compromissos relacionados à Defesa Civil, habitação, saneamento, drenagem, proteção ambiental, pesquisa científica e adaptação climática. Depois dela, podem cobrar a execução das políticas anunciadas, acompanhar gastos públicos e exigir transparência sobre obras e planos de prevenção. Também é legítimo observar como candidatos e representantes tratam as evidências produzidas por instituições científicas brasileiras, especialmente porque profissionais da própria Defesa Civil reconhecem que as mudanças climáticas deverão ampliar os desafios da gestão de desastres: levantamento divulgado pelo Cemaden em julho de 2026 constatou que 80,6% dos profissionais consultados concordavam plenamente com essa afirmação, enquanto apenas 10% se consideravam preparados para enfrentá-la.
O El Niño continuará acontecendo independentemente de quem ocupar o Palácio do Planalto, os governos estaduais ou as cadeiras do Congresso Nacional. O que depende das escolhas políticas é a estrutura que encontrará quando seus efeitos chegarem às cidades brasileiras. Entre um alerta meteorológico e uma tragédia existem decisões sobre orçamento, moradia, ocupação do território, drenagem, monitoramento, Defesa Civil, ciência e infraestrutura tomadas muitas vezes anos antes. Por isso, nas eleições de 2026, a questão climática pode fazer parte do debate público não apenas como uma disputa abstrata entre discursos ideológicos, mas como uma discussão concreta sobre que tipo de Estado e de cidade o Brasil pretende construir para conviver com um clima em transformação. O fenômeno natural não escolhe governos; a sociedade, porém, escolhe representantes e pode cobrar deles preparação, responsabilidade e políticas públicas capazes de reduzir a vulnerabilidade da população diante dos próximos eventos extremos.
Fontes para aprofundar
NOAA – ENSO Diagnostic Discussion : https://www.cpc.ncep.noaa.gov/products/analysis_monitoring/enso_advisory/ensodisc.html
NOAA – Relative Oceanic Niño Index (RONI) : https://www.cpc.ncep.noaa.gov/products/analysis_monitoring/enso/roni/
NOAA – ENSO Strength Classifications : https://www.cpc.ncep.noaa.gov/products/analysis_monitoring/enso/roni/strengths/
NOAA – Oceanic Niño Index (ONI) : https://www.cpc.ncep.noaa.gov/products/analysis_monitoring/enso/oni/v6/
NOAA Physical Sciences Laboratory – Niño 3.4 Index : https://psl.noaa.gov/data/timeseries/month/Nino34_CPC/
NOAA Climate.gov – Understanding El Niño : https://www.youtube.com/watch?v=_Tuou_QcgxI
INPE – O que precisamos saber sobre o El Niño e seus impactos para o Brasil : https://www.gov.br/inpe/pt-br/assuntos/ultimas-noticias/o-que-precisamos-saber-sobre-o-el-nino-e-seus-impactos-para-o-brasil
CEMADEN – Painel El Niño 2026–2027 : https://www.gov.br/cemaden/pt-br/assuntos/monitoramento/el-nino/lancado-o-primeiro-boletim-do-painel-do-el-nino-2026-2027-apresentando-potenciais-impactos-e-orientacoes
IPCC – Sixth Assessment Report, Working Group I : https://www.ipcc.ch/report/ar6/wg1/
IPCC – Climate Change 2021: The Physical Science Basis, Chapter 2 : https://www.ipcc.ch/report/ar6/wg1/chapter/chapter-2/
Santoso et al. – The Defining Characteristics of ENSO Extremes and the Strong 2015/2016 El Niño : https://agupubs.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/2017RG000560
Cai et al. – ENSO and greenhouse warming / extreme El Niño research : https://www.nature.com/articles/s41467-023-42115-7
Gan et al. – Anthropogenic warming and internal variability effects on El Niño : https://www.nature.com/articles/s41467-023-36053-7
INPE – O que precisamos saber sobre o El Niño e seus impactos para o Brasil : https://www.gov.br/inpe/pt-br/assuntos/ultimas-noticias/o-que-precisamos-saber-sobre-o-el-nino-e-seus-impactos-para-o-brasil
INPE – Nota técnica conjunta aponta alta probabilidade de El Niño no segundo semestre de 2026 : https://www.gov.br/inpe/pt-br/assuntos/ultimas-noticias/nota-tecnica-conjunta-aponta-alta-probabilidade-de-el-nino-no-segundo-semestre-de-2026
INPE – Painel El Niño 2026–2027: primeiro boletim mensal sobre o monitoramento do fenômeno no Brasil : https://www.gov.br/inpe/pt-br/assuntos/ultimas-noticias/painel-el-nino-2026-2027-divulga-primeiro-boletim-mensal-sobre-o-monitoramento-do-fenomeno-no-brasil
INPE – Painel El Niño 2026–2027: segundo boletim sobre o monitoramento do fenômeno no Brasil : https://www.gov.br/inpe/pt-br/assuntos/ultimas-noticias/painel-el-nino-2026-2027-segundo-boletim-sobre-o-monitoramento-do-fenomeno-no-brasil-e-publicado
CEMADEN – El Niño: boletins, monitoramento e potenciais impactos no Brasil : https://www.gov.br/cemaden/pt-br/assuntos/monitoramento/el-nino
INPE – Impactos do fenômeno El Niño na América do Sul : https://www.gov.br/inpe/pt-br/assuntos/ultimas-noticias/o-que-precisamos-saber-sobre-o-el-nino-e-seus-impactos-para-o-brasil/copy_of_Impactos_El_Nino_America_Sul1.png/view
INPE, INMET, FUNCEME e CENSIPAM – Nota técnica sobre o El Niño e aumento da probabilidade do fenômeno em 2026 : https://www.gov.br/inpe/pt-br/assuntos/ultimas-noticias/inpe-inmet-funceme-e-censipam-divulgam-nota-tecnica-sobre-o-el-nino-e-indicam-aumento-da-probabilidade-do-fenomeno-em-2026
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