Quando Deus era mulher: religião, poder e memória na obra de Merlin Stone

Durante grande parte da história ocidental, aprendemos a imaginar Deus como uma figura masculina: Pai, Senhor, Rei, Criador. Essa representação parece tão naturalizada que raramente nos perguntamos se ela sempre existiu — ou quais consequências culturais surgem quando o poder divino é associado quase exclusivamente ao masculino.

LITERATURA

Lucknup Haigert

7/16/20268 min read

Quando Deus era Mulher

A ideia central do livro é provocadora: muito antes da consolidação das grandes religiões monoteístas, diferentes povos do Mediterrâneo, do Oriente Próximo e de outras regiões cultuaram divindades femininas relacionadas à fertilidade, à terra, à sexualidade, à criação, à morte e à renovação da vida.

É justamente essa aparente naturalidade que Merlin Stone questiona em Quando Deus era mulher. Publicado originalmente em 1976, o livro investiga antigas tradições religiosas nas quais divindades femininas ocupavam posições centrais e procura compreender como essas formas de espiritualidade foram progressivamente enfraquecidas, reinterpretadas ou substituídas por sistemas religiosos patriarcais.

Mais do que apresentar uma história das deusas, Stone propõe uma reflexão sobre a relação entre religião, organização social e poder.

Essas deusas não aparecem apenas como esposas ou auxiliares de deuses masculinos. Em algumas tradições, elas ocupam o centro do universo religioso, governando a natureza, a reprodução, a sabedoria, a guerra ou o destino.

Stone reúne mitos, imagens, objetos arqueológicos e documentos históricos para argumentar que a presença dessas divindades também influenciava a maneira como as mulheres eram percebidas dentro da sociedade. Quando o princípio criador podia ser representado por uma mulher, o corpo feminino, a maternidade e a sexualidade adquiriam significados sagrados que contrastam com muitas interpretações religiosas posteriores.  A autora não está apenas perguntando quem era adorado. Ela está perguntando o que acontece com uma sociedade quando aquilo que ela considera mais elevado, poderoso e sagrado possui uma forma feminina.

Um dos aspectos mais fascinantes do livro é a variedade de divindades apresentadas. Stone percorre tradições ligadas a figuras como Inanna, Ishtar, Astarte, Ísis, Cibele e outras deusas do mundo antigo. Embora cada uma dessas divindades pertença a um contexto histórico e cultural específico, Stone identifica entre elas características recorrentes. São deusas associadas ao nascimento e à morte, à abundância e à destruição, à sexualidade e à soberania. Elas não representam apenas a maternidade delicada ou protetora, também podem ser guerreiras, governantes, legisladoras e senhoras do destino.

Essa complexidade confronta um estereótipo ainda presente na cultura contemporânea: o de que o feminino está naturalmente ligado à passividade, à fragilidade ou à submissão. Nas antigas narrativas analisadas por Stone, o poder feminino não aparece necessariamente como uma versão suavizada do poder masculino. Ele pode ser criador e destruidor, amoroso e terrível, terreno e cósmico. Um dos argumentos mais importantes de Quando Deus era mulher é que as transformações religiosas não acontecem isoladamente. Elas acompanham disputas por territórios, mudanças econômicas, guerras, migrações e novas formas de organização política.

Segundo a interpretação de Stone, à medida que sociedades patriarcais conquistaram ou assimilaram povos que cultuavam divindades femininas, as antigas deusas passaram por um processo de rebaixamento simbólico. Em alguns casos, uma deusa soberana tornou-se esposa de um deus. Em outros, passou a ser representada como uma figura perigosa, enganadora, sexualmente descontrolada ou demoníaca. Certos rituais femininos foram proibidos, enquanto sacerdotisas perderam autoridade religiosa.

Stone também examina narrativas bíblicas e tradições do antigo Oriente Próximo, procurando vestígios desses conflitos. Para ela, determinadas histórias religiosas podem guardar a memória de uma disputa entre diferentes sistemas de crença: de um lado, cultos ligados a deusas e à sacralidade feminina; de outro, religiões centradas na autoridade de uma divindade masculina.

A mudança do feminino sagrado para o masculino soberano teria sido, portanto, mais do que uma alteração teológica. Ela teria ajudado a legitimar uma nova organização social. Se o ser supremo é exclusivamente masculino, torna-se mais fácil apresentar o governo dos homens como uma extensão natural da ordem divina. Um dos momentos mais provocadores do livro é a análise de narrativas que associam a mulher ao pecado, à desobediência ou à queda da humanidade. Stone interpreta personagens como Eva dentro de um contexto histórico mais amplo. Em vez de considerar essas histórias apenas como ensinamentos espirituais, ela sugere que algumas delas podem ter contribuído para desacreditar símbolos, costumes e práticas pertencentes a tradições religiosas anteriores.

A mulher que busca conhecimento, que se relaciona com a serpente ou que desafia uma ordem estabelecida passa a ser apresentada como responsável pela entrada do sofrimento no mundo. Essa interpretação chama a atenção para a força social dos mitos. Histórias religiosas não permanecem limitadas aos templos ou aos textos sagrados. Elas influenciam leis, costumes, relações familiares, expectativas sobre a sexualidade e ideias sobre aquilo que mulheres e homens deveriam ser. Quando uma cultura repete durante séculos que a primeira mulher foi responsável pela queda da humanidade, essa narrativa pode participar da construção de uma visão negativa do corpo, da curiosidade e da autonomia femininas.

Talvez a contribuição mais duradoura de Merlin Stone esteja em demonstrar que as representações do sagrado não são neutras. Quando todas as imagens da autoridade divina são masculinas, meninos e homens crescem vendo seu próprio gênero associado ao poder supremo. Mulheres e meninas, por outro lado, podem encontrar maior dificuldade para reconhecer o feminino como uma expressão completa de autoridade, sabedoria e transcendência.

Isso não significa que toda pessoa que acredita em um Deus masculino necessariamente defenda a desigualdade entre os gêneros. A questão levantada por Stone é mais profunda: símbolos repetidos durante séculos ajudam a formar o nosso imaginário, mesmo quando não percebemos conscientemente sua influência.  Nesse sentido, recuperar antigas deusas não significa apenas reconstruir o passado. Significa ampliar as possibilidades do presente. A existência de imagens femininas do divino permite imaginar o corpo da mulher não como algo inferior, impuro ou secundário, mas como uma manifestação possível da criação, da inteligência, da autoridade e do mistério.

Quando Deus era mulher tornou-se uma obra marcante para a espiritualidade feminista e para os estudos que investigam as relações entre religião e gênero. O livro ajudou muitas leitoras a perceber que o predomínio de representações masculinas de Deus não é a única forma possível de imaginar o sagrado. Entretanto, é importante lê-lo com atenção crítica.

Algumas das interpretações de Stone foram questionadas por arqueólogos, historiadores e estudiosos das religiões. Entre as principais críticas estão o uso predominante de fontes secundárias, a ausência de notas acadêmicas detalhadas e a tendência de reunir sociedades muito diferentes dentro de uma narrativa ampla sobre o culto da Grande Deusa. A existência de numerosas divindades femininas no mundo antigo é amplamente documentada. O ponto controverso está em concluir que essas sociedades eram necessariamente matriarcais, pacíficas ou governadas por mulheres.

Uma divindade feminina poderosa não constitui, por si só, prova de que as mulheres comuns possuíam poder político ou igualdade social. Da mesma forma, uma estatueta com características femininas pode ter funções religiosas, funerárias, artísticas ou simbólicas que não conseguimos determinar com absoluta certeza.

A própria ideia de uma religião universal da Grande Deusa permanece objeto de debate. Cynthia Eller¹, por exemplo, argumenta que a narrativa de um passado pré-histórico matriarcal foi construída com evidências insuficientes e pode acabar substituindo uma história complexa por um passado idealizado.

Isso não torna a obra de Stone irrelevante. Ao contrário, mostra como ela deve ser lida: não como a conclusão definitiva de uma investigação arqueológica, mas como uma intervenção feminista poderosa na maneira de contar a história das religiões.

1 -The Myth of Matriarchal Prehistory: Why an Invented Past Won’t Give Women a Future. Boston: Beacon Press, 2000.

Por que ler "Quando Deus era mulher " hoje?

Décadas depois de sua publicação, o livro continua atual porque as perguntas levantadas por Stone permanecem abertas.

Por que Deus ainda é imaginado predominantemente como homem? O que aconteceu com as antigas divindades femininas? De que maneira mitos religiosos influenciaram a posição das mulheres? Quem escolheu as histórias que seriam preservadas — e quais histórias foram esquecidas?

Stone nos convida a desconfiar da ideia de que as estruturas sociais atuais sempre existiram. Aquilo que parece natural pode ser resultado de processos históricos, conflitos políticos e escolhas culturais.

A obra também nos lembra de que recuperar as mulheres do passado não significa apenas procurar rainhas, guerreiras ou governantes. Significa investigar sacerdotisas, artistas, curadoras, agricultoras, parteiras e todas aquelas cujas experiências foram apagadas ou registradas por meio do olhar masculino.

Ao devolver o feminino ao campo do sagrado, Merlin Stone não pretende apenas trocar um Deus por uma Deusa. Seu gesto mais importante consiste em romper a associação automática entre masculinidade e autoridade.

Talvez a maior contribuição do livro não esteja em provar que existiu uma época perfeita governada por mulheres, como a maioria das pessoas pode interpretar. Mas sim em demonstrar que o patriarcado não precisa ser considerado eterno, inevitável ou sagrado.

Leituras para continuar explorando o tema
1. A linguagem da Deusa, de Marija Gimbutas

Uma continuação importante para quem deseja conhecer os registros arqueológicos e simbólicos associados às divindades femininas da Europa neolítica. Gimbutas interpreta milhares de imagens, estatuetas e sinais recorrentes como partes de uma linguagem religiosa ligada à vida, à morte e à regeneração. Sua interpretação foi profundamente influente, embora também seja debatida entre arqueólogos.

2. O cálice e a espada, de Riane Eisler

Eisler propõe uma leitura ampla da história humana baseada no conflito entre modelos sociais de parceria e sistemas de dominação. A autora dialoga com as teorias das sociedades centradas na Deusa e procura relacioná-las aos debates contemporâneos sobre violência, gênero e poder.

3. A criação do patriarcado, de Gerda Lerner

Uma leitura histórica fundamental. Em vez de explicar o patriarcado como consequência natural das diferenças entre os sexos, Lerner investiga sua formação gradual nas antigas sociedades do Oriente Próximo. A obra coloca o gênero no centro da interpretação da civilização ocidental.

4. In the Wake of the Goddesses, de Tikva Frymer-Kensky

A autora examina as deusas da antiga Mesopotâmia e as transformações produzidas pelo monoteísmo bíblico nas concepções de natureza, gênero e sexualidade. É uma leitura especialmente útil para aprofundar as relações entre as religiões mesopotâmicas e os textos bíblicos.

5. Rebirth of the Goddess, de Carol P. Christ

Voltado para a teologia e a espiritualidade feminista, o livro discute o significado contemporâneo da Deusa e as possibilidades de imaginar o divino para além dos modelos tradicionais de poder e transcendência.

6. The Myth of Matriarchal Prehistory, de Cynthia Eller

Um contraponto indispensável. Eller questiona a existência de uma civilização matriarcal pré-histórica amplamente difundida e examina as evidências utilizadas por autoras ligadas ao movimento da Deusa. A leitura permite comparar argumentos e separar a importância simbólica da Deusa das afirmações propriamente arqueológicas.

7. “Thinking about Goddesses: A Review of Three Recent Books”, de Carol P. Christ

Para quem deseja conhecer os debates metodológicos mais recentes dos estudos sobre as deusas, esse artigo acadêmico discute como os pesquisadores interpretam evidências textuais e visuais da antiga Mesopotâmia, além de refletir sobre as relações entre gênero, religião e poder.

8. Os poemas de Enheduana e os hinos à deusa Inanna

Ler fontes antigas é uma maneira valiosa de ir além das interpretações modernas. Enheduana, princesa e alta sacerdotisa que viveu no século XXIII a.C., é considerada a primeira autora conhecida pelo nome na história da literatura. Entre as obras atribuídas a ela estão hinos dedicados a Inanna, deusa suméria ligada ao amor, à guerra, à transformação e ao poder. Pode-se acessar em https://enheduana.org/enheduanas-poems/

Ordem sugerida de leitura

Para uma jornada equilibrada, comece com Merlin Stone e Marija Gimbutas. Em seguida, leia Gerda Lerner e Tikva Frymer-Kensky para aprofundar o contexto histórico. Depois, conheça a dimensão espiritual e filosófica em Carol P. Christ. Finalize com Cynthia Eller, confrontando as hipóteses anteriores com uma leitura arqueológica mais crítica.

Assim, será possível compreender não apenas o fascínio exercido pela imagem da Grande Deusa, mas também as disputas acadêmicas, políticas e espirituais existentes em torno de sua história.

Se as imagens de Deus mudaram ao longo da história, nossas formas de imaginar o poder também podem e devem mudar.

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