Quando a arte toma partido: Rammstein, resistência e a responsabilidade política dos artistas
Uma análise de “Links 2 3 4”, do Rammstein, que relaciona música, história, filosofia e sociologia para discutir o poder da arte como resistência política, a importância do posicionamento dos artistas e seu papel na construção de identidades e na transformação social.
FILOSOFIA


Capa oficial do single da música Links 2 3 4
Quando a arte toma partido: Rammstein, resistência e a responsabilidade política dos artistas
Uma análise histórica, filosófica e sociológica de “Links 2 3 4”
Existe uma ideia bastante difundida de que a arte deveria permanecer distante da política. Segundo essa perspectiva, músicos deveriam apenas produzir música, atores deveriam limitar-se à interpretação e escritores deveriam evitar posicionamentos capazes de dividir seu público. A arte seria, portanto, um território de entretenimento, protegido das disputas ideológicas que atravessam a sociedade. Entretanto, essa concepção ignora uma característica fundamental da produção cultural: nenhuma obra surge completamente isolada das condições históricas, dos valores e das relações de poder de seu tempo. Mesmo quando um artista não pretende transmitir uma mensagem política, sua obra pode reproduzir, questionar ou transformar aquilo que determinada sociedade considera normal.
Em 2001, a banda alemã Rammstein apresentou uma resposta particularmente provocativa a essa discussão. Com o lançamento de Links 2 3 4, presente no álbum Mutter, o grupo transformou acusações de simpatia pela extrema direita em uma declaração artística de posicionamento político. A música, construída sobre guitarras pesadas, uma cadência militar e uma letra aparentemente simples, apresenta uma contradição deliberada: utiliza símbolos frequentemente associados ao autoritarismo para afirmar uma identidade política de esquerda. Mais do que uma provocação, a composição oferece um caminho para investigar a relação entre estética, ideologia, identidade e responsabilidade social.
Para compreender essa escolha, é necessário retornar à história recente da Alemanha. O Rammstein surgiu em 1994, poucos anos depois da reunificação alemã, em um país que ainda enfrentava as consequências políticas e culturais de décadas de divisão. Seus integrantes haviam crescido na República Democrática Alemã, a Alemanha Oriental, cujo regime socialista construiu parte de sua identidade oficial em oposição ao nazismo, embora também mantivesse estruturas autoritárias de controle e repressão política. A reunificação, em 1990, não apagou essas experiências distintas, tampouco encerrou as disputas em torno da memória do nacional-socialismo e da identidade alemã.
Desde seus primeiros trabalhos, o Rammstein explorava uma estética marcada pela rigidez corporal, pela teatralidade, por imagens industriais e por uma sonoridade agressiva. A maneira como Till Lindemann interpretava suas músicas, combinada à encenação de força e disciplina nos espetáculos, frequentemente despertava associações com o militarismo alemão. Essas interpretações ganharam força em 1998, quando a banda lançou o videoclipe de Stripped, utilizando imagens do filme Olympia, de Leni Riefenstahl, cineasta associada à propaganda do regime nazista. A escolha provocou críticas sobre a apropriação de uma linguagem visual historicamente vinculada ao Terceiro Reich. A controvérsia não pode ser reduzida a um simples mal-entendido: símbolos carregam memórias sociais, e sua reutilização pode produzir significados que ultrapassam as intenções de quem os emprega.
Em uma entrevista à revista Rolling Stone, realizada em 2011, Lindemann explicou que os integrantes haviam crescido em um ambiente socialista, rejeitavam o nazismo e consideravam injustas as acusações recebidas. Segundo o vocalista, Links 2 3 4 foi criada precisamente para esclarecer o posicionamento político do grupo. Essa declaração é fundamental porque permite distinguir a intenção expressa pelos músicos das diferentes interpretações que suas obras podem provocar. A canção não foi concebida apenas como uma resposta às críticas, mas também como uma reivindicação do direito de seus autores definirem publicamente sua própria identidade.
O primeiro elemento que chama a atenção é a própria estrutura sonora. Antes mesmo de a letra desenvolver seu argumento, a música estabelece uma atmosfera de marcha. O ritmo marcado e repetitivo sugere corpos se movimentando em conjunto, seguindo uma cadência compartilhada. A repetição do comando “Links, zwo, drei, vier”, equivalente a “esquerda, dois, três, quatro”, reproduz a linguagem de uma contagem militar. Existe uma ironia evidente nessa escolha: uma música que afirma uma posição de esquerda utiliza uma forma sonora que pode remeter, especialmente no contexto alemão, às demonstrações de disciplina e força de regimes autoritários.
Entretanto, a marcha não pertence exclusivamente a uma tradição ideológica. Movimentos operários, organizações revolucionárias e agrupamentos antifascistas também utilizaram canções de marcha para produzir identificação coletiva e mobilização política. Um exemplo importante é Einheitsfrontlied, a Canção da Frente Unida, escrita por Bertolt Brecht e composta por Hanns Eisler em 1934, no contexto da resistência ao nazismo. Apresentada publicamente em 1935, a composição defendia a união dos trabalhadores diante da ascensão do fascismo e das divisões internas do movimento operário alemão. O parentesco entre essas tradições musicais e Links 2 3 4 oferece uma conexão histórica significativa, embora não seja necessário afirmar que a canção do Rammstein seja uma citação musical direta da obra de Brecht e Eisler.
Essa aproximação revela uma questão sociológica: o ritmo compartilhado pode ajudar a transformar indivíduos dispersos em um grupo que se reconhece como coletividade. Cantar, marchar e repetir palavras em conjunto são experiências que podem fortalecer sentimentos de pertencimento. Ao mesmo tempo, a uniformidade dos movimentos também pode expressar obediência e supressão da individualidade. O significado político dessa experiência não depende apenas da aparência do grupo, mas dos valores que o mobilizam, das relações de poder que estabelece e da liberdade concedida aos seus participantes. A solidariedade entre pessoas que lutam por direitos não é equivalente à submissão exigida por um regime autoritário, ainda que ambas possam recorrer à organização e à disciplina.
É nesse cenário que a letra começa a apresentar seu argumento. A primeira estrofe é formada por perguntas sobre a possibilidade de partir, fazer falar, atormentar e roubar corações. À primeira vista, essas imagens pertencem ao universo das emoções e dos relacionamentos pessoais. Contudo, a escolha de verbos associados à dor, à comunicação e à apropriação permite uma leitura mais ampla. O coração deixa de representar somente o amor romântico e passa a simbolizar a vida interior do indivíduo: suas convicções, seus sentimentos, suas vulnerabilidades e sua capacidade de expressão.
Sob uma perspectiva política, essas perguntas podem ser interpretadas como uma reflexão sobre a relação entre indivíduo e sociedade. Até que ponto uma identidade pode ser determinada por forças externas? Uma pessoa pode ser obrigada a abandonar suas convicções? Sua imagem pública pode ser apropriada e transformada em algo que não corresponde ao que ela acredita? Essas questões dialogam diretamente com a situação enfrentada pelo Rammstein, cuja identidade política vinha sendo constantemente interpretada por críticos, jornalistas e espectadores. A utilização do coração como metáfora desloca o conflito da aparência para a subjetividade: aquilo que o indivíduo demonstra exteriormente não necessariamente corresponde ao que acredita interiormente.
O refrão desenvolve essa tensão por meio de um jogo linguístico que constitui o centro político da composição. Em alemão, existe uma expressão que corresponde aproximadamente à ideia de ter o coração no lugar certo, significando possuir boas intenções, generosidade ou integridade moral. A palavra rechten, utilizada nessa expressão, também permite uma associação com a direita. O Rammstein transforma essa ambiguidade em uma provocação: diante da expectativa de que o coração esteja no lugar considerado correto, o narrador observa que ele pulsa à esquerda. A referência anatômica é utilizada como metáfora de pertencimento político. O corpo se torna uma maneira de contestar a identidade atribuída por outras pessoas.
Esse recurso é especialmente interessante porque desloca a autoridade de quem julga para quem está sendo julgado. O narrador não pede permissão para declarar suas convicções, tampouco tenta adaptar sua identidade às expectativas externas. Ele afirma uma posição própria. Naturalmente, o fato de o coração estar situado predominantemente à esquerda do tórax não constitui uma justificativa biológica para qualquer ideologia. Trata-se de uma construção poética que utiliza uma realidade corporal para criar um símbolo político. Sua eficácia reside justamente na simplicidade: um elemento universal da experiência humana é transformado em uma declaração de identidade.
O sociólogo e teórico cultural Stuart Hall oferece instrumentos importantes para aprofundar essa interpretação. Em seus estudos sobre comunicação e representação, especialmente no modelo de codificação e decodificação, Hall demonstrou que o significado de uma mensagem não é determinado exclusivamente por quem a produz. O público interpreta símbolos a partir de suas próprias experiências, valores e referências culturais. Uma mesma obra pode, portanto, receber interpretações dominantes, negociadas ou abertamente contrárias à intenção de seus autores.
A trajetória do Rammstein exemplifica essa disputa de sentidos. Para parte do público, sua estética militarizada poderia sugerir proximidade com ideologias autoritárias. Para os integrantes da banda, determinados elementos funcionavam como recursos de provocação, teatralidade e confronto com a memória histórica alemã. Links 2 3 4 surge no interior dessa disputa interpretativa. A banda procura reduzir a distância entre aquilo que pretende comunicar e aquilo que parte da sociedade compreende, sem abandonar a linguagem provocativa que caracteriza seu trabalho. Contudo, a teoria de Hall também impede uma conclusão simplista: declarar uma intenção não elimina automaticamente as consequências culturais de uma imagem. A liberdade artística convive com a possibilidade legítima de crítica.
Na segunda estrofe, a música retorna à imagem do coração, agora perguntando se ele pode cantar, despedaçar-se, ser puro ou transformar-se em pedra. A oposição entre pureza e dureza é particularmente significativa. A sonoridade do Rammstein frequentemente transmite agressividade, mas a letra questiona a associação automática entre uma aparência dura e uma ausência de sensibilidade. Um coração de pedra representa a indiferença; um coração que canta ou se parte representa a capacidade de sentir, comunicar e sofrer. A composição sugere, dessa maneira, que a intensidade estética não determina a natureza moral de quem a produz.
Essa distinção permite estabelecer uma conexão com a filosofia de Jacques Rancière. Em A Partilha do Sensível, o filósofo francês desenvolve a ideia de que arte e política participam da organização daquilo que uma sociedade é capaz de perceber, reconhecer e considerar legítimo. A política, nessa perspectiva, não acontece somente nas instituições ou nas eleições. Ela também envolve a disputa sobre quais vozes podem ser ouvidas, quais experiências são reconhecidas e quais sujeitos possuem o direito de aparecer publicamente.
O Rammstein atua nesse terreno quando confronta a ideia de que determinados estilos musicais ou linguagens visuais pertencem naturalmente a uma posição política. A banda questiona os critérios utilizados para estabelecer uma identidade antes mesmo de ouvir o conteúdo da mensagem. Sua intervenção artística consiste, em parte, em desorganizar uma associação aparentemente evidente entre estética e ideologia. Com isso, a música não apenas comunica uma convicção, mas provoca uma reflexão sobre os processos pelos quais julgamos, classificamos e reconhecemos outras pessoas.
Na terceira estrofe, a letra assume um tom ainda mais reflexivo. Surgem perguntas sobre consultar o coração, oferecê-lo a alguém e pensar por meio dele. Há também uma referência a carregar uma criança sob o coração, expressão tradicional alemã relacionada à gravidez. Essa passagem amplia o campo simbólico da composição. O coração, anteriormente associado à dor e à identidade, passa a representar também o cuidado, a continuidade da vida e os vínculos que conectam os indivíduos uns aos outros.
É possível interpretar essa mudança como uma aproximação entre convicção política e responsabilidade afetiva. Posicionar-se não significa necessariamente rejeitar a razão em favor da emoção, mas reconhecer que nossas escolhas públicas possuem consequências para vidas concretas. Ideologias não existem apenas como sistemas abstratos de ideias; elas influenciam as condições de existência das pessoas, a segurança das comunidades e as possibilidades de futuro das próximas gerações. Sob essa leitura, o coração oferece uma imagem de responsabilidade humana que contrasta com a frieza normalmente associada à organização militar.
Essa interpretação encontra um diálogo produtivo com bell hooks. Em Art on My Mind: Visual Politics, publicado originalmente em 1995, a pensadora norte-americana analisa a relação entre produção artística, identidade, desigualdade e resistência cultural. Para hooks, a arte pode contribuir para questionar representações dominantes e criar possibilidades de reconhecimento para indivíduos e grupos historicamente marginalizados. Sua reflexão permite compreender que a produção cultural não atua somente sobre ideias abstratas: ela interfere na maneira como as pessoas enxergam a si mesmas e aos outros.
Embora o contexto do Rammstein seja diferente daquele investigado por bell hooks, a aproximação ajuda a compreender a importância do posicionamento artístico. Quando um artista contesta publicamente uma ideologia ou uma interpretação que considera injusta, ele participa da disputa sobre quais valores devem ocupar espaço na sociedade. Essa atuação pode fortalecer determinadas formas de solidariedade, incentivar questionamentos e ampliar debates que ultrapassam os limites da obra. A influência artística, entretanto, não é automaticamente emancipadora; ela também pode reproduzir preconceitos e relações de dominação. Por isso, a responsabilidade cultural não termina no ato de declarar uma posição política.
O videoclipe de Links 2 3 4, dirigido por Zoran Bihać e lançado em maio de 2001, acrescenta uma camada importante a essa discussão. A narrativa apresenta uma comunidade de formigas que vive, trabalha, participa de atividades coletivas e enfrenta a ameaça de grandes besouros. Em determinados momentos, os insetos se organizam em formações que lembram exércitos. A solidariedade do grupo se transforma em um instrumento de enfrentamento, enquanto a própria banda aparece integrada ao universo das formigas. A representação combina humor, disciplina e conflito, tornando visualmente explícita a ambiguidade presente na música.
A utilização das formigas permite uma leitura sociológica sobre a força da organização coletiva. Individualmente, cada inseto parece pequeno diante dos adversários. Em conjunto, o grupo consegue enfrentar uma ameaça que ultrapassa suas capacidades isoladas. Essa imagem pode representar movimentos sociais que transformam experiências particulares de vulnerabilidade em ações compartilhadas. Entretanto, a metáfora também apresenta um limite importante: sociedades humanas não deveriam ser compreendidas como organismos nos quais cada indivíduo possui apenas uma função predeterminada. A potência democrática de uma coletividade depende da preservação da pluralidade, do dissenso e da capacidade de questionar suas próprias lideranças.
Nesse ponto, a filósofa Judith Butler oferece uma contribuição relevante. Em Corpos em Aliança e a Política das Ruas, Butler investiga como a reunião de pessoas no espaço público pode constituir uma forma de ação política. Manifestar-se coletivamente não significa apenas transmitir uma reivindicação previamente formulada. A própria presença conjunta dos corpos pode tornar visíveis necessidades, vulnerabilidades e demandas por reconhecimento. Essa reflexão permite compreender por que a música, ao produzir identificação e experiências coletivas, pode participar de processos de mobilização social.
A conexão entre a narrativa das formigas e a filosofia de Butler não significa que o videoclipe apresente uma teoria democrática acabada. Trata-se de uma interpretação possível, que deve conviver com a dimensão crítica da própria obra. O encerramento do vídeo, com a aparição de uma mão humana aparentemente sem vida, rompe a atmosfera de triunfo das formigas e devolve ao espectador uma imagem perturbadora. A vitória coletiva não resolve todas as questões sobre violência, poder e fragilidade. A obra conserva suas contradições, impedindo que seja reduzida a uma celebração ingênua da disciplina ou da unidade.
Talvez seja justamente essa ambivalência que torne Links 2 3 4 um exemplo tão produtivo para discutir a função política da arte. A filósofa Chantal Mouffe, em seu ensaio Artistic Activism and Agonistic Spaces, de 2007, argumenta que as práticas artísticas participam da construção e da contestação das relações de poder. Para ela, uma sociedade democrática não elimina os conflitos entre diferentes projetos políticos; cria condições para que esses conflitos sejam expressos e disputados publicamente. A arte pode contribuir para esse processo ao questionar consensos estabelecidos e apresentar maneiras alternativas de interpretar a realidade.
Sob essa perspectiva, o valor político do Rammstein não reside apenas em declarar sua oposição ao nazismo. Ele também está na capacidade de provocar debates sobre símbolos, memória, identidade e responsabilidade histórica. Uma obra que desperta controvérsia pode obrigar seus espectadores a investigar os próprios critérios de julgamento. Isso não significa que toda provocação seja necessariamente relevante, nem que a intenção artística justifique qualquer escolha estética. Significa reconhecer que o conflito interpretativo pode participar da vida cultural de uma sociedade democrática.
A história da música oferece inúmeros exemplos de artistas que assumiram posições diante de conflitos sociais. Durante a ditadura militar brasileira, Chico Buarque utilizou a composição musical como forma de crítica à repressão e à ausência de liberdades políticas. Sua canção Apesar de Você, lançada em 1970 e posteriormente censurada, tornou-se um símbolo de resistência ao regime. Embora as circunstâncias históricas e os riscos enfrentados por Chico fossem muito diferentes daqueles vividos pelo Rammstein em uma Alemanha democrática, os dois episódios revelam a capacidade da música de transformar conflitos políticos em experiências culturais compartilhadas. A canção pode alcançar pessoas que dificilmente entrariam em contato com um debate teórico ou um manifesto político.
Essa característica é particularmente importante porque a arte mobiliza dimensões da experiência humana que não se limitam à argumentação racional. Uma composição pode despertar memórias, produzir identificação emocional e criar sentimentos de solidariedade. Seu alcance social, entretanto, não deve ser confundido com uma capacidade garantida de produzir transformações políticas. Uma música, isoladamente, não modifica leis, substitui organizações sociais ou elimina estruturas de desigualdade. Sua força está em contribuir para a circulação de ideias, para a formação de identidades e, em determinadas circunstâncias, para o fortalecimento de movimentos coletivos.
É nesse sentido que a discussão sobre o posicionamento político dos artistas ganha relevância. Quando um músico, escritor ou cineasta alcança grande visibilidade, suas manifestações públicas podem introduzir temas importantes na conversa social. Essa influência pode ser utilizada para questionar injustiças, denunciar autoritarismos, defender direitos ou simplesmente tornar visíveis experiências que permanecem marginalizadas. O silêncio, por sua vez, também pode produzir efeitos políticos, especialmente quando determinadas questões já ocupam o centro do debate público. Isso não significa, contudo, que a ausência de uma declaração deva ser interpretada automaticamente como concordância com uma injustiça.
Defender a importância do posicionamento artístico não equivale a exigir que todos os artistas adotem a mesma ideologia ou transformem cada obra em um manifesto. A liberdade de expressão inclui o direito de assumir convicções, de apresentar contradições e também de não se pronunciar sobre determinados acontecimentos. Além disso, a pressão por declarações imediatas pode transformar o engajamento político em uma estratégia de autopromoção, na qual a aparência de compromisso social se torna mais importante do que a coerência entre discurso e prática. Uma sociedade democrática precisa de artistas livres para intervir no debate público, não de artistas obrigados a reproduzir opiniões consideradas aceitáveis por seus públicos.
O próprio Rammstein demonstra que uma declaração política não encerra definitivamente as controvérsias sobre uma obra. Afirmar uma identidade de esquerda ou rejeitar o nazismo não torna todas as escolhas artísticas automaticamente legítimas, assim como a utilização de uma estética militarizada não constitui, por si só, prova de adesão ao autoritarismo. É necessário considerar a intenção dos autores, o contexto histórico, os recursos expressivos utilizados e os efeitos possíveis sobre os espectadores. Essa análise exige reconhecer tanto o direito à provocação quanto o direito à crítica.
Ao final da composição, o coração é novamente apresentado como algo que pulsa à esquerda, enquanto o narrador sugere que seus detratores não compreenderam corretamente sua natureza. A insistência no refrão transforma a declaração inicial em uma afirmação cada vez mais enfática. Não estamos diante de uma demonstração filosófica destinada a provar a superioridade de determinada corrente política. Estamos diante de uma resposta artística à tentativa de definir a identidade de um grupo a partir de sua aparência. A música reivindica a possibilidade de existir uma distância entre os símbolos utilizados por uma obra e as convicções daqueles que a criaram.
Mais de duas décadas depois de seu lançamento, Links 2 3 4 continua oferecendo uma reflexão importante sobre a relação entre liberdade artística e participação política. Sua relevância ultrapassa a oposição entre esquerda e direita, porque envolve uma questão anterior: quem possui o poder de determinar o significado de uma expressão cultural e quais responsabilidades surgem quando essa expressão alcança milhões de pessoas?
O posicionamento político dos artistas importa não porque eles possuam respostas superiores às de outros cidadãos, mas porque participam da construção dos símbolos, narrativas e sensibilidades por meio dos quais interpretamos o mundo. Quando utilizam sua liberdade para confrontar o autoritarismo, questionar preconceitos ou ampliar o debate público, podem contribuir para uma sociedade mais consciente de seus conflitos e de suas possibilidades de transformação. Mas essa contribuição só preserva seu valor democrático quando permanece aberta à crítica, à pluralidade e à autonomia do público.
No caso do Rammstein, a mensagem fundamental emerge precisamente da tensão entre uma estética de disciplina e uma afirmação de identidade. A banda não abandona sua linguagem para se posicionar politicamente; utiliza essa linguagem para questionar aquilo que o público acredita compreender sobre ela. O resultado é uma obra que provoca, incomoda e desafia interpretações estabelecidas.
Talvez a contribuição mais significativa de Links 2 3 4 esteja justamente nessa escolha: em vez de aceitar que sua identidade seja definida exclusivamente pelos outros, o Rammstein transforma a música em uma declaração pública de convicção. E, ao fazer isso, demonstra que a arte não precisa abandonar sua complexidade para participar da política.
Afinal, quando o mundo tenta decidir de que lado deve estar o coração de um artista, a própria arte pode se tornar o espaço no qual ele responde.

Materiais para aprofundar as ideias apresentadas nesse artigo
1. RAMMSTEIN. Links 2 3 4 — Videoclipe oficial. Álbum Mutter, 2001. https://www.youtube.com/watch?v=Ph-CA_tu5KA
2. LINDEMANN, Till; LORENZ, Christian. Rammstein: Exklusives Interview mit Till Lindemann und Flake. Rolling Stone, entrevista de 2011. https://www.rollingstone.de/rammstein-exklusives-interview-mit-till-lindemann-und-flake-lorenz-343190/
3. ZANDER, Ulf. Left, Right or Wrong? Rammstein Playing with Symbols of Sex, Violence and Dictatorship as a Test of Democracy. HumaNetten, v. 52, p. 27–39, 2024. https://doi.org/10.15626/hn.20245203
4. RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível: estética e política. São Paulo: Editora 34, 2005. https://www.editora34.com.br/livro/310
5. MOUFFE, Chantal. Arte e democracia: arte como intervenção agonística no espaço público. Revista Limiar, v. 12, n. 23, p. 5–14, 2025. https://doi.org/10.34024/limiar.2025.v12.20982
6. HALL, Stuart. Cultura e representação. Rio de Janeiro: Editora PUC-Rio; Apicuri, 2016. https://www.editora.puc-rio.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=367&sid=2
7. BUTLER, Judith. Corpos em aliança e a política das ruas: notas sobre uma teoria performativa de assembleia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018. https://www.record.com.br/products/corpos-em-alianca-e-a-politica-das-ruas
8. STREET, John. Music and Politics. Cambridge: Polity Press, 2012. https://www.wiley.com/en-us/music-and-politics-p-9780745635439
9. hooks, bell. Art on My Mind: Visual Politics. Nova York: The New Press, 1995. https://thenewpress.org/books/art-on-my-mind/
10. BUNDESZENTRALE FÜR POLITISCHE BILDUNG. Politische Kampflieder: Vorwärts und nicht vergessen. Alemanha, 2016. https://www.bpb.de/themen/zeit-kulturgeschichte/sound-des-jahrhunderts/210236/politische-kampflieder/
PAQUIDERME PUNK bros, vida inteligente na Internet, desde 2017!
