História da China - Uma breve Viagem
Uma viagem pela história da China, das primeiras dinastias à potência contemporânea, explorando a formação do Estado, o confucionismo, as crises imperiais, as revoluções do século XX e a capacidade chinesa de transformar rupturas, influências externas e conflitos em novos projetos de poder.
HISTÓRIA


As Raízes da China: Poder, Filosofia e a Formação do Estado Imperial
A China é, em grande parte, um país desconhecido do público brasileiro. Essa afirmação não é apenas retórica — ela serve como convite para que o você abandone os poucos estereótipos que conhece e se disponha a compreender uma das civilizações mais longas, complexas e influentes da história humana. E para entender a China de hoje, é preciso começar pelo começo: as origens de seu Estado, suas primeiras dinastias e os conceitos filosóficos e políticos que moldaram séculos de história.
A história chinesa tem suas raízes em um período neolítico, quando as primeiras comunidades humanas se estabeleceram ao longo dos grandes rios da região, especialmente o Rio Amarelo. Essa relação com a água é central: ela fornecia não apenas recursos para a agricultura, mas também uma cosmologia — a ideia de que é do céu que vem a água, conectando o mundo natural ao divino. Essa ligação entre natureza, cosmo e poder político vai percorrer toda a história chinesa subsequente, sendo reinterpretada por cada dinastia que surge.
A primeira dinastia mencionada nas fontes históricas é a Xia, que pode ser descrita como um grande incógnito. Sua existência é debatida pelos historiadores, pois há pouquíssimas evidências materiais que a confirmem de forma conclusiva. Ela funciona, na narrativa histórica chinesa, mais como um elemento fundador de legitimidade do que como um período plenamente documentado. É com a dinastia seguinte, a Shang, que a história chinesa começa a ganhar contornos mais sólidos e verificáveis. A capital da dinastia Shang foi encontrada arqueologicamente próxima à cidade de Anyang, e é durante esse período que surgem algumas das descobertas mais importantes para a compreensão da civilização chinesa. Uma delas é o desenvolvimento de uma escrita — ainda que primitiva — e o uso sofisticado do bronze, que aparece tanto em armas quanto em objetos rituais. Mas talvez o elemento mais significativo da dinastia Shang seja de natureza religiosa: a prática da adivinhação. Os governantes consultavam os ancestrais por meio de ossos e carapaças de tartaruga, buscando orientação divina para as decisões do Estado. Esse traço divinatório vai ser herdado pelas dinastias posteriores e moldará a concepção chinesa de poder por séculos.
A queda da dinastia Shang ocorre quando um de seus senhores de terra se rebela, derrota o último soberano e o acusa de corrupto. Esse gesto não é apenas político — ele inaugura um dos conceitos mais poderosos e duradouros da história chinesa: o Tianming, ou Mandato do Céu. A ideia é simples, mas profunda: o governante não detém o poder por direito próprio, mas porque o Céu lhe concedeu esse mandato. Se o governante se torna corrupto, injusto ou incapaz, o Céu pode retirar esse mandato — e uma rebelião bem-sucedida é, ela própria, a prova de que o Céu escolheu um novo soberano. Esse conceito, desenvolvido e sistematizado durante a dinastia Zhou, cria uma estrutura de legitimação do poder que é simultaneamente religiosa e política. O governante passa a ser chamado de Tianzhe — o Filho do Céu —, um intermediário entre o mundo humano e o divino.
A dinastia Zhou, porém, não consegue manter a coesão do território por muito tempo. Com o tempo, o poder central enfraquece e o território se fragmenta em vários reinos que disputam a hegemonia entre si. É o chamado Período dos Estados Combatentes — um tempo de instabilidade política, guerras constantes e insegurança generalizada. Paradoxalmente, esse mesmo período de caos é também um momento de extraordinária efervescência intelectual. É como se a crise política obrigasse os pensadores a buscar respostas mais profundas sobre como organizar a sociedade, como governar com justiça, como o ser humano deve se relacionar com os outros. Surgem então as chamadas Cem Escolas de Pensamento, um florescimento filosófico sem paralelo na história chinesa.
O maior nome desse período — e talvez o mais influente de toda a história chinesa — é Kong Fu Zhe, que o Ocidente simplificou como Confúcio. Ele viveu justamente nesse tempo de caos e buscou, em sua filosofia, uma resposta para a desordem que via ao redor. Confúcio é descrito como aquele que vai tentar sistematizar tudo aquilo que um ser humano, um homem e a sua comunidade têm obrigações éticas entre si. Seu pensamento parte das relações humanas concretas: a relação do filho com o pai, do súdito com o rei, do irmão mais novo com o irmão mais velho. Para Confúcio, a harmonia social não nasce de leis impostas de fora, mas do cultivo interno da virtude e do cumprimento dos papéis que cada um ocupa na hierarquia social. Em sua essência, o confucionismo defende que cada pessoa deve praticar o melhor bem possível para todos os outros. Confúcio não deixou apenas uma obra — ele formou alunos e discípulos que continuaram a trabalhar e expandir suas ideias por séculos, tornando o confucionismo a espinha dorsal filosófica e ética da civilização chinesa.
É do caos dos Estados Combatentes que emerge, finalmente, a primeira grande unificação da China: a dinastia Qin. Seu fundador adotou o título de Huangdi — o Imperador Amarelo —, remetendo simbolicamente a uma figura mítica anterior aos próprios reis históricos, reforçando assim sua pretensão de poder absoluto e sagrado. A dinastia Qin é famosa por seu caráter centralizador e pela adoção do legalismo como filosofia de Estado — uma escola de pensamento que defendia leis rígidas, punições severas e controle total do Estado sobre a população, em oposição à ênfase confuciana na virtude e nas relações humanas. O legado material mais conhecido desse período é o mausoléu monumental do imperador, com seu exército de guerreiros de terracota.
A dinastia Qin, porém, durou muito pouco. Seu rigor excessivo gerou resistência, e ela foi rapidamente sucedida pela dinastia Han — que seria, em muitos sentidos, a grande síntese da história chinesa até aquele momento. A Han herdou a estrutura administrativa centralizada da Qin, mas a temperou com os valores confucianos, criando um modelo de governo que combinava eficiência burocrática e ética filosófica. Mais do que isso, a Han expandiu seu alcance territorial para regiões que nem mesmo a Qin havia conseguido alcançar, consolidando o que o pode ser chamada de a China histórica. É também na dinastia Han que surge o primeiro grande historiador chinês, Sima Qian — ou Samatian, como aparece na transcrição —, responsável pela primeira grande compilação da história chinesa, registrando desde os tempos míticos até o seu próprio período. Essa obra é fundamental: ela cria uma narrativa de continuidade histórica que vai sustentar a identidade chinesa por milênios.
Entre Reinos e Religiões: Fragmentação Política e a Chegada do Budismo
A chave interpretativa fundamental para entender a história chinesa é a alternância entre períodos de unificação e períodos de fragmentação. Esse movimento não é, como pode parecer à primeira vista, uma simples sequência de caos e ordem. Podemos dizer que esse período de fragmentação não significa apenas pura causa e ordem — na verdade, trata-se de uma recombinação de fatores humanos, de ideias novas, de efervescência intelectual, de entrada de culturas novas. Em outras palavras, cada vez que a China se fragmenta, ela também se transforma, absorve, reinventa. E é exatamente isso que acontece no período que sucede a queda da dinastia Han.
A queda da Han não é um evento simples. Ela desencadeia um processo de fragmentação não tão simples — um colapso que abre espaço para disputas militares, rivalidades regionais e o surgimento de figuras históricas que se tornariam lendárias na cultura chinesa. A mais emblemática delas é Cao Cao — nome que em chinês se pronuncia Tsao Tsao. Cao Cao é descrito como um dos generais e líderes militares mais brilhantes de toda a história chinesa. Ele emerge do caos pós-Han como uma força centralizadora, buscando reunificar o território sob seu comando. No entanto, a unificação que ele persegue nunca se completa plenamente em vida. Seu filho, Wei Cao — cujo nome combina o nome do reino que fundou com o sobrenome do pai —, herda o projeto, mas também não consegue sustentá-lo por muito tempo. Com a morte de Wei Cao, a fragmentação se aprofunda ainda mais, e o território chinês se divide em múltiplos reinos que disputam a hegemonia entre si.
É desse período turbulento que nasce uma das obras literárias mais importantes da cultura chinesa: o Romance dos Três Reinos. Esse livro era um dos favoritos de Mao Zedong — o que já diz muito sobre sua relevância histórica e política. O romance não é uma simples ficção: ele pega casos históricos, militares e políticos desse período e os transforma em narrativa épica, tornando-se um espelho da mentalidade estratégica e dos valores morais que a civilização chinesa cultivou ao longo dos séculos. A fragmentação não é apenas um dado político — ela é também um momento gerador de cultura, memória e identidade.
Mas é no campo religioso que a transformação mais profunda desse período se revela. Enquanto o território político se fragmenta, algo novo começa a entrar pela fronteira noroeste da China: o budismo. Até então, a religiosidade chinesa era dominada por duas grandes tradições. O confucionismo, com uma ideologia burocrática — um sistema ético voltado para as relações humanas, a hierarquia social e a organização do Estado. E o taoísmo, que já estava bastante presente desde os séculos anteriores, com sua ênfase na harmonia com a natureza, no fluxo espontâneo das coisas e no conceito de wu-wei — a não-ação, o agir sem forçar, deixar as coisas seguirem seu curso natural. Essas duas tradições conviviam e, de certa forma, se complementavam na vida religiosa e filosófica chinesa.
O budismo, porém, propõe algo estranho para esse contexto — algo que inicialmente soa como um desafio às estruturas existentes. Ele chega à China por meio de monges, de comunidades religiosas e dos chamados Vinayas — os códigos de conduta e convívio dos monges budistas. Esses primeiros monges budistas aparecem nas regiões noroeste da China, em territórios já fragmentados, onde o vácuo de poder político criava espaço para novas ideias. Com o tempo, alguns monges chineses empreenderam longas peregrinações em direção à Ásia Central, buscando os textos sagrados budistas em suas regiões de origem, e os trouxeram de volta para a China. Esse esforço de tradução e assimilação foi lento, mas profundo.
O que tornava o budismo tão desafiador — e ao mesmo tempo tão atraente — para a China era, sobretudo, o seu conceito de universalidade. Enquanto o confucionismo e o taoísmo eram sistemas enraizados na cultura, na história e nas relações sociais específicas da China, no budismo você tem o conceito universal — a ideia de que o sofrimento, a impermanência e a busca pela iluminação dizem respeito a todo ser humano, independentemente de sua origem, posição social ou pertencimento cultural. Essa abertura universal era algo novo no horizonte intelectual chinês, e ela encontrou um terreno fértil especialmente entre aqueles que estavam descontentes com os ensinamentos do taoísmo ou com os preceitos do confucionismo.
O processo de adaptação do budismo à China não foi, porém, uma simples importação. Os monges e pensadores budistas chineses foram, gradualmente, fazendo o que a civilização chinesa sempre fez nos períodos de abertura: absorvendo o que vinha de fora e transformando-o em algo próprio. O budismo começou a dialogar com o taoísmo, incorporando conceitos como o wu-wei dentro de sua própria estrutura de meditação e contemplação. Essa fusão criativa deu origem a novas escolas de pensamento budista. A mais significativa delas, no contexto desta aula, é a escola Chan — que surge a partir de sábios chamados Arhats, que se dedicaram à meditação profunda e ao desenvolvimento de uma forma de budismo mais contemplativa e menos ritualística. A escola Chan vai se consolidar e, posteriormente, chegar ao Japão — onde será conhecida pelo nome que o mundo ocidental aprendeu a reconhecer: Zen.
A China Cosmopolita: Comércio, Cidades e Cultura nas Dinastias Tang e Song
É com a dinastia Tang que o território chinês não apenas se reunifica, mas dá um salto extraordinário em termos de expansão, abertura cultural e sofisticação urbana. A Tang não se limita a integrar o norte e o centro-sul da China — ela avança além das fronteiras históricas, atravessando o Corredor Gansu e chegando às regiões da Ásia Central. Esse movimento para o oeste é decisivo, porque é ele que transforma a Tang numa dinastia verdadeiramente cosmopolita.
Ao se expandir em direção à Ásia Central, a Tang entra em contato com uma enorme variedade de povos e culturas: povos das estepes, falantes de línguas túrquicas e mongóis, que trazem consigo práticas como o uso do cavalo e do arco e flecha, além de costumes, músicas, vestimentas e saberes que vão sendo gradualmente absorvidos pela cultura chinesa. Essa abertura para o mundo exterior não é uma fraqueza — é uma das marcas mais distintivas da Tang. Ela recebe estrangeiros, incorpora influências e as transforma em algo novo. A capital da dinastia, Chang'an — localizada na região que hoje corresponde à cidade de Xi'an —, é o símbolo mais vivo desse cosmopolitismo: uma metrópole que chegou a quase um milhão de habitantes, tornando-se uma das maiores e mais vibrantes cidades do mundo em seu tempo. Comerciantes, monges, diplomatas e artistas de diferentes origens circulavam por suas ruas, fazendo de Chang'an um verdadeiro centro do mundo.
Esse período de grandeza, no entanto, não é linear. No meio da dinastia Tang, um episódio dramático abala toda a sua estrutura: a chamada Rebelião de An Lushan. An Lushan era um general, que acumulou poder militar suficiente para se rebelar contra o imperador e chacoalhar a unidade da dinastia. A rebelião não destrói a Tang imediatamente, mas a enfraquece de forma profunda. Há um segundo momento de reunificação, mas a dinastia nunca mais recupera plenamente sua força anterior. E é também nesse período conturbado que surge uma das figuras mais fascinantes de toda a história chinesa: Wu Zetian.
Wu Zetian é uma personagem única. Ela começa sua trajetória como consorte imperial — uma concubina do imperador —, mas usa sua inteligência e habilidade política para ascender progressivamente ao poder. Numa sociedade profundamente marcada pelo confucionismo e pela hierarquia de gênero, ela faz algo que nenhuma outra mulher havia feito antes na história da China: se declara imperadora — não imperatriz consorte, mas imperadora por direito próprio. Para legitimar sua ascensão ao trono, ela recorre ao budismo, utilizando textos e interpretações religiosas que sustentavam a ideia de que uma mulher poderia ser uma governante legítima. Wu Zetian governa com mão firme, expande o sistema de exames imperiais e deixa uma marca indelével na história — sendo até hoje um símbolo da capacidade feminina de exercer o poder num mundo dominado por homens.
Após a queda definitiva da Tang, a China passa por mais um período de fragmentação — o chamado período das Cinco Dinastias —, marcado por instabilidade e disputas regionais. É desse caos que emerge, em 960, uma nova força unificadora: o Imperador Taizu, fundador da dinastia Song. Taizu reconhece que Tang havia se esticado demasiadamente em direção às regiões ocidentais, e por isso adota uma postura diferente. Em vez de buscar a expansão territorial para o oeste, volta seu olhar para o interior — e, especialmente, para o sul.
Essa reorientação geográfica tem consequências enormes. A Song se estabelece na região do Rio Yangtze para o sul, e essa posição favorece algo que a China nunca havia desenvolvido com tanta intensidade: o comércio fluvial e marítimo. Por estar mais ao sul, a Song tem acesso privilegiado às rotas comerciais pelos rios e pelo mar, o que impulsiona um desenvolvimento econômico sem precedentes. Esse fenômeno é uma verdadeira revolução comercial — e não é exagero. Cidades como Hangzhou e Suzhou tornam-se centros urbanos extraordinariamente ricos, conectadas pelo Grande Canal, com famílias que acumulam fortunas consideráveis e que constroem jardins e residências de beleza singular.
Mas a Song não é apenas rica economicamente — ela é também um período de extraordinária florescência cultural e artística. A dinastia Song é quase que uma referência canônica na pintura, na caligrafia — ou seja, quando os chineses pensam no auge da arte clássica, é frequentemente para a Song que olham. Ao mesmo tempo, a dinastia investe fortemente no sistema de exames imperiais confucionistas, aprofundando a ideia de que o Estado deve ser governado por uma burocracia meritocrática formada por letrados — uma herança da Han que a Song leva a um novo nível de sofisticação.
Esse esplendor, porém, convive com uma fragilidade militar estrutural. A dinastia Song nunca consegue controlar plenamente as regiões ao norte, onde povos como os Jurchen — os Chujins — pressionam constantemente as fronteiras. Em determinado momento, os Jurchen conseguem expulsar os chineses da Song para o sul do Rio Yangtze, inaugurando o período conhecido como Song do Sul, com capital em Hangzhou. A Song do Sul resiste por décadas, mas enfrenta uma ameaça ainda maior vinda do norte: os mongóis. A partir do século XIII, sob a liderança de Gengis Khan e depois de seu neto Kublai Khan, os mongóis avançam progressivamente em direção ao sul, e em 1279 vencem os últimos leais da dinastia Song do Sul, encerrando definitivamente esse período e inaugurando a dinastia Yuan — o primeiro governo estrangeiro a controlar toda a China.
A China no Centro do Mundo: Estado, Navegação e Globalização na Era Ming
A dinastia Yuan, fundada por Kublai Khan no século XIII, havia sido o primeiro governo estrangeiro a controlar toda a China. E apesar de sua natureza conquistadora, o período Yuan produziu algo de extraordinário: um corredor trans asiático que se estendia desde a Manchúria e a Coreia até o Baixo Rio Volga, chegando às proximidades da Polônia e da Anatólia. Esse corredor permitia a circulação de pessoas, produtos e ideias em uma escala nunca vista antes. É dentro dessa rede mongol que o está situada a famosa viagem de Marco Polo — o mercador veneziano que teria percorrido esse corredor e servido à corte de Kublai Khan, sendo usado, como tantos outros povos administrados pelos mongóis, para fazer funcionar um império multiétnico de grandes dimensões.
Mas o domínio mongol sobre a China não durou para sempre. Ele foi marcado por uma hierarquia social rígida que colocava os chineses em posição de inferioridade dentro de seu próprio território — abaixo dos mongóis, abaixo dos aliados da Ásia Central e abaixo dos muçulmanos e cristãos nestorianos que serviam ao império. Essa humilhação alimentou uma resistência crescente, que culminou em rebeliões populares e na expulsão dos mongóis. De dentro desse caos emerge, em 1368, a dinastia Ming — e com ela, um dos projetos mais ambiciosos de reconstrução do Estado chinês em toda a sua história.
O fundador da Ming, o imperador Hongwu — cujo nome de reinado significa abundância marcial —, vem de origens humildes, isso é algo incomum e significativo. Ele nasce numa família camponesa, perde os pais ainda criança durante uma fome devastadora, chega a pedir esmolas como monge budista errante e, por um caminho extraordinário de ascensão militar e política, torna-se o primeiro imperador da nova dinastia. Essa origem popular vai marcar profundamente seu estilo de governo: Hongwu desconfia da aristocracia, fortalece o poder central e reconstrói a burocracia confucionista com mão firme. O grande desafio que ele enfrenta desde o início é a ameaça mongol — os mongóis, expulsos do interior da China, continuam se reorganizando ao norte, chegando a se autodenominar dinastia Yuan do norte, sinalizando que não abandonaram suas pretensões sobre o território chinês.
É o terceiro grande imperador da Ming, Yongle, quem leva o projeto da dinastia a um novo patamar. Esse seria o grande imperador da dinastia Ming — e não sem razão. Yongle consolida o poder herdado de Hongwu e toma uma decisão estratégica que vai definir os séculos seguintes: em 1405, ele transfere a capital da região sul — que remetia à dinastia Song do Sul — para o norte, para a cidade que conhecemos hoje como Pequim. Essa mudança não é apenas logística. Ela é uma declaração política: ao instalar a capital mais próxima da fronteira norte, Yongle sinaliza que a Ming não foge da ameaça mongol — ela a enfrenta de frente. Pequim se torna, a partir daí, o coração político da China, e é nesse período que começa a construção da famosa Cidade Proibida, o complexo imperial que até hoje impressiona o mundo.
Mas Yongle não é apenas um estrategista militar. Ele é também um governante com visão de mundo extraordinariamente ampla. É durante seu reinado que a Ming lança uma das iniciativas mais fascinantes de toda a história naval: uma série de sete grandes expedições marítimas, lideradas por um personagem singular — um eunuco muçulmano de origem da Ásia Central. Essas expedições, financiadas diretamente pelo imperador, partem em direção ao Sudeste Asiático, atravessam o Oceano Índico, chegam à costa da África Oriental e estabelecem contato com dezenas de povos e reinos ao longo do caminho. É preciso ao caracterizar o objetivo dessas missões: elas não eram expedições militares — eram expedições diplomáticas. A China não buscava conquistar esses territórios, mas sim estabelecer relações tributárias, demonstrar o poderio e a grandeza do Império Ming e trazer de volta presentes, animais exóticos e reconhecimento simbólico da supremacia chinesa. As embarcações eram enormes — muito maiores do que qualquer navio europeu da época —, e a China já dominava tecnologias como a bússola, que lhe dava capacidade náutica avançada.
Depois de Yongle, a Ming atravessa um período de consolidação. Outros grandes imperadores surgem, e a dinastia vai se firmando como um Estado estável, próspero e culturalmente sofisticado. Um dos elementos centrais desse período é o aprofundamento do sistema de exames imperiais confucionistas — a ideia de que o Estado deve ser governado por letrados formados no conhecimento clássico, selecionados pelo mérito e não pela origem familiar. Esse sistema, que a Ming herda e aprimora, cria uma burocracia profissional que é, ao mesmo tempo, uma das maiores forças e uma das maiores limitações do Estado chinês: ela garante coesão e competência administrativa, mas também pode se tornar conservadora e resistente a mudanças.
É também durante a Ming que a China entra de forma mais intensa no que podemos chamar de globalização — o processo pelo qual, a partir do século XV e XVI, os continentes passam a se conectar de maneira inédita. E aqui entra um elemento econômico decisivo: a prata. A China Ming havia monetizado sua economia com base na prata, mas o metal era escasso em território chinês. A solução veio de um lugar improvável: as minas da América do Sul, exploradas pelos colonizadores espanhóis. Um dado impressionante é que 85% da prata que a China demandava durante as dinastias Ming e Qing vinha das Américas, chegando por meio das rotas comerciais do Pacífico e do Índico. Isso significa que a economia chinesa estava profundamente conectada ao sistema global que emergia com a expansão europeia — mesmo que a China não fosse a potência expansionista, ela era o grande polo de atração do comércio mundial.
E o que a China exportava em troca dessa prata? Produtos que encantavam o mundo. As porcelanas, a seda e o chá são os grandes artigos de exportação Ming — produtos que começaram a mudar as feições do gosto da classe média europeia. A porcelana Ming, em particular, tornou-se um objeto de desejo e status em toda a Europa. Sua estética — marcada pelo famoso azul e branco, produzido com pigmentos que os chineses sabiam que os europeus e os muçulmanos do Oriente Médio apreciavam enormemente — definia o imaginário do que era luxo e refinamento. É importante observar que até hoje, o estilo Ming é o que praticamente marca o nosso imaginário do que é a porcelana chinesa. Tal era a demanda que, nos mercados europeus, chegavam a circular falsificações — porcelanas de baixa qualidade produzidas em oficinas de segunda categoria no sul da China, ou até fabricadas na própria Europa, tentando imitar o estilo imperial.
Além dos produtos manufaturados, a Ming também absorveu da globalização algo inesperado: novos alimentos. O contato com as rotas comerciais que ligavam a China às Américas — via intermediários europeus e asiáticos — trouxe ao território chinês culturas como a batata e o milho, que se adaptaram muito bem ao clima e ao solo de regiões que antes eram pouco produtivas. Essa incorporação de novos alimentos teve um impacto demográfico significativo: ela contribuiu para um crescimento populacional expressivo durante a dinastia Ming, ao ampliar a base alimentar disponível para a população.
A dinastia Ming, portanto, é uma dinastia que vive uma tensão permanente entre dois impulsos: o de se fechar e se proteger — especialmente da ameaça mongol ao norte — e o de se abrir para o mundo, comerciar, navegar e absorver o que vinha de fora. Essa tensão não se resolve de forma simples. No final do período Ming, a combinação de crises internas — rebeliões, corrupção, enfraquecimento do poder central — com pressões externas vindas do norte vai abrir caminho para o fim da dinastia e a chegada de uma nova força conquistadora: os Manchus, que fundarão a dinastia Qing em 1644.
O Império dos Manchus: Expansão, Diversidade e Poder na Dinastia Qing
No século XVII, a dinastia Ming já apresentava problemas sérios. E esses problemas não vieram de uma única direção — eles se acumularam de múltiplas fontes ao mesmo tempo. Havia questões climáticas e ambientais, como secas que devastavam a produção agrícola e geravam fome em diversas regiões. Havia conflitos internos entre lideranças regionais que já não se sentiam confortáveis com a centralização administrativa exercida a partir de Pequim. E havia, no coração do próprio Estado Ming, uma fragilidade estrutural onde o conservadorismo da elite letrada confucionista.
Os letrados aprovados nos exames imperiais — a espinha dorsal da burocracia chinesa — eram formados numa tradição profundamente hierárquica e conservadora. O confucionismo, tem um forte teor hierárquico e tende a valorizar a ordem estabelecida, a reverência aos ancestrais e a continuidade das formas tradicionais de governo. Durante a Ming, esse conservadorismo foi se tornando cada vez mais rígido, especialmente com o surgimento de correntes neoconfucionistas que aprofundavam ainda mais essa tendência. O resultado era uma burocracia que resistia a mudanças, que valorizava a forma sobre a substância e que, diante de uma crise real, mostrava-se incapaz de oferecer respostas criativas e adaptativas. Quando o imperador se desinteressava dos assuntos de Estado — e isso aconteceu com frequência nos últimos anos da Ming —, o vácuo de poder era preenchido por decisões instáveis e disputas internas: Se o imperador não se interessa, alguém vai tomar a decisão para si.
É nesse contexto de fragilidade que emerge uma figura dramática: Li Zicheng, um líder militar da região norte-central da China que consegue organizar uma rebelião poderosa o suficiente para marchar em direção à capital. Li Zicheng entra em Pequim, e o último imperador Ming, vendo-se sem saída e sem apoio, toma uma decisão desesperada: se enforca numa árvore dentro da própria Cidade Proibida — uma cena que marca, simbolicamente, o fim de quase três séculos de dinastia Ming. Li Zicheng assume o poder, mas sua vitória é efêmera. Um general Ming chamado Wu Sangui, que guardava a fronteira norte, recusa-se a reconhecer a legitimidade do novo governante. E é aqui que acontece um dos momentos mais decisivos de toda a história chinesa: Wu Sangui abre as portas da Grande Muralha para os Manchus.
Os Manchus eram um povo do nordeste, além das fronteiras históricas da China. Eles já haviam se organizado politicamente e militarmente ao longo das décadas anteriores, construindo um Estado próprio e desenvolvendo uma identidade coletiva distinta. Quando Wu Sangui os convida a entrar, eles não hesitam. Os Manchus avançam, derrotam Li Zicheng e, em 1644, assumem o controle de Pequim e de todo o território chinês, fundando a dinastia Qing — a última dinastia imperial da China, que governaria por quase três séculos, até 1911.
Ao contrário do que se poderia esperar de um povo conquistador, eles não chegam como bárbaros que destroem o que encontram. Eles chegam como governantes que já estavam, em grande medida, sinicizados — ou seja, profundamente influenciados pela cultura, pela língua e pelos valores políticos chineses. Essa sinicização não era superficial: os Manchus haviam estudado o confucionismo, compreendiam o sistema burocrático chinês e sabiam que, para governar a China, precisavam ser aceitos como legítimos herdeiros da tradição imperial, pois a dinastia Manchu é tremendamente inventiva, ela é adaptativa nesse primeiro momento — e essa adaptabilidade é a chave para entender como um povo estrangeiro conseguiu governar a maior civilização do mundo por quase trezentos anos.
A estratégia Manchu de legitimação foi sofisticada em vários sentidos. O jovem primeiro imperador Manchu, ao assumir o trono, adota imediatamente os rituais, os títulos e as formas de governo da tradição imperial chinesa. A língua Manchu é declarada oficial ao lado do chinês — um gesto de reconhecimento da própria identidade, mas também de respeito pela cultura dominante. Os Manchus mantêm o sistema de exames imperiais confucionistas, preservam a burocracia letrada e se apresentam não como invasores, mas como restauradores da ordem após o caos provocado por Li Zicheng. Em outras palavras, eles reivindicam para si o Mandato do Céu — o mesmo conceito que havia legitimado todas as dinastias anteriores —, argumentando que a queda da Ming foi a prova de que o Céu havia retirado seu mandato dos Ming e o transferido para os Qing.
Com essa base de legitimidade estabelecida, a dinastia Qing entra em seu período de maior grandeza. Os três grandes imperadores Manchus podemos destacar — e cujo primeiro já aparece logo nos anos iniciais da dinastia — levam a China a uma expansão territorial sem precedentes. A Qing incorpora territórios que nenhuma dinastia chinesa anterior havia conseguido controlar de forma estável: regiões da Ásia Central, áreas ao norte e ao noroeste, consolidando o que seria o maior território da história chinesa. Esse projeto expansionista não era apenas militar — ele era também cultural e diplomático, com os imperadores Qing se apresentando como governantes de um império multiétnico que respeitava, ao menos formalmente, as identidades dos povos incorporados.
Um episódio fascinante nesse contexto é a presença dos jesuítas na corte imperial. Missionários jesuítas como Matteo Ricci e Adam Schall von Bell haviam chegado à China ainda no período Ming, aprendido o chinês e conseguido se aproximar da corte imperial. O que os tornava úteis — e, portanto, tolerados — não era sua religião, mas seu conhecimento científico e técnico. Os jesuítas dominavam a astronomia, a matemática e a tecnologia de fundição de canhões, e os imperadores Qing, pragmáticos que eram, reconheceram o valor dessas habilidades. Quando os chineses percebem que os jesuítas têm uma precisão astronômica muito maior do que os astrônomos da corte, eles os nomeiam para cargos importantes na administração imperial — um exemplo notável de como a Qing, ao menos em seus momentos de maior vigor, sabia absorver o que vinha de fora quando isso era útil.
Esse pragmatismo, no entanto, tinha limites claros. O maior dos imperadores Qing — o grande imperador Manchu — recebe, no final do século XVIII, uma embaixada enviada pela Coroa Britânica. A missão, liderada por Lord Macartney, vinha com um objetivo comercial e diplomático: abrir relações formais entre a Grã-Bretanha e a China, estabelecer uma embaixada permanente em Pequim e ampliar o acesso britânico aos mercados chineses. O imperador recebe a embaixada com curiosidade, mas a resposta que oferece é reveladora de toda a mentalidade imperial chinesa: É muito interessante o que você traz, diz o imperador — e em seguida recusa todas as demandas britânicas. A China, na visão imperial, era o centro do mundo, o Reino do Meio, o Filho do Céu que recebia tributos de todos os outros povos. A ideia de estabelecer relações diplomáticas em termos de igualdade com uma potência estrangeira simplesmente não cabia dentro do sistema sinocêntrico que organizava a visão de mundo imperial. O que para os britânicos era uma proposta de comércio e diplomacia, para o imperador era, no máximo, mais um pedido de reconhecimento tributário de um povo distante.
Essa recusa, que no momento pareceu apenas uma afirmação de grandeza imperial, revelaria nas décadas seguintes uma fragilidade profunda. A China Qing estava, sem saber, diante de um mundo que estava mudando de forma acelerada — e sua confiança na superioridade da civilização chinesa a impedia de perceber a extensão dessas mudanças. O confronto com essa nova realidade viria no século XIX, com consequências devastadoras — mas esse é o tema da aula seguinte.
O Século da Humilhação: Imperialismo, Rebeliões e o Colapso da Ordem Imperial
A dinastia Qing, que havia chegado ao poder como força conquistadora estrangeira no século XVII, atingiu seu auge territorial justamente sob o imperador Qianlong, no século XVIII. Sob seu reinado, os Manchus consolidaram o controle sobre a Manchúria — sua terra ancestral —, pacificaram as regiões norte-centrais e derrotaram as últimas grandes rebeliões dos mongóis ocidentais, os chamados Dzungares. As alianças construídas desde os tempos de Nurhachi — o fundador do projeto político Manchu — com diversos povos mongóis haviam garantido uma estabilidade sem precedentes nas fronteiras norte e noroeste. Praticamente toda a fronteira norte expandida da China contemporânea foi consolidada nesse período. Em termos de extensão territorial, a Qing sob Qianlong era a maior China da história.
E, no entanto, é exatamente nesse ponto de aparente grandeza que começam a se acumular as contradições que levarão ao colapso. O século XIX apresenta, um período de desafio da dinastia Manchu — e esse desafio virá de múltiplas direções ao mesmo tempo, criando uma pressão que o sistema imperial, com toda a sua rigidez e conservadorismo, não conseguirá suportar.
O primeiro e mais estrutural dos problemas é de natureza ideológica. O sistema sinocêntrico — a visão de mundo que colocava o imperador chinês como o Filho do Céu, centro do mundo civilizado, receptor de tributos de todos os povos ao redor — havia funcionado como princípio organizador da política externa chinesa por séculos. Mas esse sistema era fundamentalmente incompatível com o mundo que estava emergindo no século XIX, um mundo de potências europeias expansionistas que operavam segundo uma lógica completamente diferente: a lógica do comércio, da diplomacia entre iguais e, quando necessário, da força militar. A ideia de que outro Estado pudesse se relacionar com a China em termos de igualdade simplesmente não cabia dentro do quadro mental imperial. E essa incapacidade de reconhecer o mundo como ele era se tornaria, nas décadas seguintes, uma vulnerabilidade fatal.
O segundo problema é econômico, e está diretamente ligado ao comércio com a Grã-Bretanha. Como havia sido discutido na aula anterior, a China exportava enormes quantidades de seda, chá e porcelana para o mundo — produtos pelos quais os britânicos pagavam em prata. O problema é que os britânicos queriam comprar cada vez mais produtos chineses, mas a China não tinha interesse equivalente nos produtos britânicos. O desequilíbrio comercial era imenso: a prata fluía da Inglaterra para a China, e isso gerava uma pressão crescente sobre a economia britânica. A única coisa que os britânicos poderiam oferecer em troca, além da prata, era algo que a China já produzia — e que, portanto, não gerava interesse comercial. A solução que os comerciantes britânicos encontraram para esse problema foi, do ponto de vista moral, uma das mais sórdidas da história do capitalismo: o ópio.
Os britânicos já tinham experiência com o comércio de ópio — haviam comercializado a droga cultivada em Java e vendido em regiões da Índia. Agora, eles passaram a introduzir o ópio sistematicamente no mercado chinês. Havia partes da sociedade chinesa que tinham condições de comprar o ópio e rapidamente se tornavam viciadas nele. Surgiram casas de ópio frequentadas por pessoas muito ricas. Os comerciantes britânicos começaram a produzir bolas de ópio refinado, e a droga foi ficando progressivamente mais barata e acessível. O resultado foi uma crise social de proporções enormes: o vício se espalhava, a produtividade caía, e a prata — que antes fluía para dentro da China — começou a fluir para fora, em pagamento pelo ópio.
A resposta do Estado Qing foi declarar ilegal o uso não medicinal do ópio. O imperador, em 1839, decide agir de forma mais drástica: nomeia um comissário imperial com poderes para confiscar e destruir os estoques de ópio que estavam nas mãos dos comerciantes britânicos em Cantão. Qualquer coleção de caixas de ópio que pudesse ser pego seria destruída. Essa decisão foi corajosa do ponto de vista moral, mas catastrófica do ponto de vista estratégico — porque deu à Grã-Bretanha o pretexto que ela precisava para usar a força militar.
A Primeira Guerra do Ópio eclode a partir desse confronto. É preciso colocar a Guerra do Ópio nas suas devidas dimensões: ela não foi uma guerra entre dois exércitos equivalentes. Foi uma demonstração brutal da superioridade militar britânica — especialmente naval — sobre um Estado que havia se fechado para as transformações tecnológicas do mundo exterior. A China Qing simplesmente não tinha condições de enfrentar a marinha britânica. Em 1842, a guerra termina com a assinatura do Tratado de Nanking — o primeiro dos chamados tratados desiguais que marcariam o século XIX chinês. Por esse tratado, a China foi obrigada a ceder Hong Kong à Grã-Bretanha, abrir uma série de portos ao comércio estrangeiro e pagar indenizações pesadas. O sistema sinocêntrico havia sido quebrado pela força das armas.
Mas o Tratado de Nanking não foi o fim — foi apenas o começo de uma série de humilhações. Uma Segunda Guerra do Ópio foi travada para forçar a abertura de ainda mais portos e arrancar novas concessões. Outras potências europeias, vendo o que a Grã-Bretanha havia conseguido, passaram a exigir suas próprias concessões. A China foi sendo progressivamente dividida em zonas de influência estrangeira, com diferentes potências controlando diferentes regiões e portos. E enquanto isso acontecia externamente, o interior do país entrava em colapso.
A maior catástrofe interna desse período é a Rebelião Taiping — um conflito que que foi descrito nos livros como um dos mais mortíferos da história humana. A rebelião nasceu de uma combinação explosiva de fatores: a crise econômica gerada pelo ópio e pelos tratados desiguais, o descontentamento das populações rurais empobrecidas e uma figura messiânica singular — um líder que havia entrado em contato com o cristianismo protestante e se convenceu de que era irmão de Jesus Cristo, destinado a fundar um Reino Celestial na Terra. Esse movimento tomou conta de vastas regiões do sul e centro da China, estabeleceu uma capital própria em Nanjing e desafiou o poder Qing por mais de uma década. A repressão da Rebelião Taiping custou um preço inimaginável: calcula-se entre 30 ou 40 milhões de chineses mortos. Trata-se de um dos conflitos mais letais de toda a história registrada — e ele aconteceu quase sem que o mundo ocidental prestasse atenção.
A Qing conseguiu reprimir o Taiping, mas ao custo de se tornar ainda mais dependente de lideranças militares regionais — generais que haviam organizado exércitos próprios para combater os rebeldes e que, após a vitória, mantinham um poder autônomo considerável. O Estado central havia se enfraquecido de forma dramática. E é nesse contexto que surge, no interior da burocracia Qing, um debate sobre como responder à crise. Uma corrente de pensamento propunha o que ficou conhecido como o movimento de autopropulsão — a ideia de que a China deveria adotar a tecnologia militar ocidental, especialmente armamentos e navios de guerra, sem, no entanto, abandonar os valores confucionistas e a estrutura imperial. Era uma tentativa de ter o melhor dos dois mundos: a força técnica do Ocidente com a alma da civilização chinesa.
Mas essa tentativa de modernização seletiva encontrou resistência feroz no Conselho de Estado dos mandarins de alto escalão — a elite burocrática confucionista que, no século XIX, ainda tem grande resistência a qualquer mudança mais profunda. Para esses mandarins, a adoção de tecnologia estrangeira era aceitável apenas nos limites mais estreitos; qualquer reforma mais abrangente que tocasse nas estruturas do Estado ou nos princípios confucionistas era inadmissível. Esse conservadorismo estrutural foi testado de forma dramática quando o pensador Kang Yuwei propôs reformas mais profundas durante o reinado do imperador Tongzhi — reformas que foram bloqueadas pelos setores mais conservadores da corte.
A fragilidade do Estado Qing foi exposta de forma ainda mais humilhante quando o Japão — um país que havia passado por uma modernização acelerada com a Restauração Meiji — declarou guerra à China em disputa pela influência sobre a Coreia. Os japoneses vencem essa guerra em 1895, e o resultado é chocante para a China e para o mundo: um país asiático que havia se modernizado derrotou a maior civilização da Ásia em questão de meses. A derrota para o Japão foi, para muitos chineses, mais humilhante do que as derrotas para as potências europeias — porque o Japão era um vizinho que havia aprendido com o Ocidente e aplicado esse aprendizado com sucesso, enquanto a China havia hesitado e resistido.
O golpe final na autoridade da Qing veio em 1900, com a Rebelião dos Boxers — um movimento popular que eclodiu a partir da região de Shandong e se espalhou até Pequim. Os Boxers eram grupos que praticavam artes marciais e acreditavam em proteção sobrenatural, e canalizaram o ódio popular acumulado contra a presença estrangeira na China — os missionários, os comerciantes, as concessões territoriais. A rebelião chegou a cercar as legações estrangeiras em Pequim. A resposta foi uma intervenção militar conjunta de oito potências estrangeiras — incluindo Grã-Bretanha, França, Alemanha, Rússia, Estados Unidos e Japão —, que marcharam sobre Pequim, derrotaram os Boxers e impuseram à China mais um tratado humilhante, com indenizações astronômicas e novas concessões.
A dinastia Qing havia sobrevivido, mas era uma sobrevivência sem dignidade. O sistema imperial, que havia governado a China por milênios, estava claramente esgotado. Em 1911, uma revolução liderada por forças republicanas derrubou o último imperador — uma criança chamada Puyi —, encerrando não apenas a dinastia Qing, mas mais de dois mil anos de sistema imperial chinês.
Em Busca de uma Nova China: República, Nacionalismo e Revolução
A queda do sistema imperial Qing não significou, de forma alguma, o surgimento imediato de uma China estável e unificada. Pelo contrário — o colapso da Qing abriu um período de profunda incerteza sobre qual seria o destino político do país. A grande questão de 1911 é que a dinastia Manchu realmente estava no fim. Mas o que viria depois? Uma república? Uma monarquia constitucional? Um anarquismo? Ninguém sabia ao certo. Esse vácuo de certezas é o ponto de partida de uma das fases mais turbulentas e, ao mesmo tempo, mais intelectualmente ricas de toda a história chinesa.
No plano político, o momento da queda da Qing é marcado por uma efervescência de ideias e lideranças que disputavam o rumo do país. Um dos personagens centrais desse momento é Kang Yuwei — o intelectual reformista que já havia tentado, ainda dentro do sistema imperial, propor reformas modernizantes inspiradas no modelo japonês. Kang Yuwei acreditava que era possível preservar toda a herança, a rica herança confucionista chinesa ao mesmo tempo em que se adotavam as transformações institucionais que o Japão havia realizado com sucesso durante a Restauração Meiji. Essa visão — de que a China poderia se modernizar sem abandonar sua alma cultural — representava uma das correntes de pensamento em disputa naquele momento. Mas o mundo que emergia em 1911 já havia ultrapassado essa proposta, e as forças que estavam em jogo eram muito mais radicais.
É nesse contexto que surge a figura de Sun Yat-sen, reconhecendo o peso simbólico desse título. Sun Yat-sen estava em Hong Kong quando a revolução eclodiu, e é chamado de volta para liderar o processo de transição. Ele traz consigo um projeto republicano claro, inspirado nas ideias políticas ocidentais, e suas ideias organizam a maioria da Assembleia Constituinte que deveria desenhar uma nova constituição para o país. O partido que emerge desse processo — e que Sun Yat-sen vai tentar consolidar ao longo dos anos seguintes — é o Kuomintang, o Partido Nacionalista Chinês. Sun Yat-sen torna-se presidente num primeiro momento, mas seu poder é logo contestado por forças militares mais conservadoras, e ele passa a exercer uma liderança mais simbólica do que efetiva. Já no final de sua vida, em 1916, sua influência política direta havia diminuído consideravelmente, embora sua figura continuasse sendo uma referência moral para o movimento nacionalista.
É também nesse período que começa a se destacar um personagem que vai dominar a política chinesa por décadas: Chiang Kai-shek — cujo nome se pronuncia como Tchankaychek. Ele se forma na Academia Militar de Whampoa, insere-se no movimento do Kuomintang e, após a morte de Sun Yat-sen, torna-se o grande líder em contexto do Kuomintang. Mas Chiang Kai-shek não herda um país unificado — ele herda um território fragmentado, onde diferentes regiões estão sob o controle de líderes militares independentes, os chamados senhores de guerra, completamente independentes em relação ao poder central. A China republicana era, na prática, um mosaico de poderes regionais que mal reconheciam a autoridade de Nanking — a capital escolhida pelo Kuomintang.
É nesse ambiente de fragmentação que eclode, em 1919, o Movimento de Quatro de Maio — um dos momentos mais importantes da história intelectual e cultural chinesa do século XX. Que pode ser caracterizado como virulentamente nacionalista, chinês — um movimento que nasce da indignação popular diante das humilhações impostas ao país pelas potências estrangeiras, especialmente após o Tratado de Versalhes, que transferiu para o Japão os territórios que a Alemanha havia controlado na China, ignorando completamente as reivindicações chinesas. Mas o Quatro de Maio não é apenas um protesto político — ele é também uma revolução cultural. Estudantes e intelectuais das grandes universidades chinesas saem às ruas e, ao mesmo tempo, questionam radicalmente as bases da cultura tradicional chinesa. O confucionismo, a hierarquia social, a língua clássica inacessível ao povo — tudo isso é posto em xeque. A pergunta que o movimento coloca é brutal: será que a tradição chinesa, em vez de ser a solução para a crise do país, é parte do problema?
Essa efervescência intelectual cria o caldo de cultura em que novas ideias políticas florescem. E é nesse ambiente que o Partido Comunista Chinês começa a se organizar, a partir do início da década de 1920. Num primeiro momento, o Partido Comunista Chinês não tem um projeto parecido com o Kuomintang — ele está ainda buscando sua identidade política e sua base social. Há uma tensão interna profunda dentro do próprio partido: muitos de seus membros entendem que não deveriam concentrar sua base nas cidades e no proletariado urbano — como a teoria marxista clássica sugeria —, mas sim no imenso campesinato rural, que representava a esmagadora maioria da população chinesa. Essa questão — cidade ou campo, operários ou camponeses — vai ser um dos eixos centrais das disputas internas do partido nas décadas seguintes.
Num primeiro momento, porém, comunistas e nacionalistas chegam a operar em relativa cooperação, pressionados pela influência de Stalin e da Internacional Comunista, que orientava o Partido Comunista Chinês a apoiar o Kuomintang como força progressista capaz de unificar o país. Mas essa aliança frágil logo se rompe de forma violenta. Chiang Kai-shek, ao subir ao poder, lança seu grande projeto de unificação: a Expedição Norte, uma campanha militar destinada a avançar sobre Pequim e subjugar os senhores de guerra que controlavam o norte do país. Ao longo dessa campanha, ele percebe que os comunistas — que haviam construído uma base de apoio considerável entre trabalhadores e camponeses — representavam uma ameaça à sua hegemonia. A resposta de Chiang Kai-shek é brutal: ele manda seu exército atacar as bases comunistas, desencadeando um massacre que dizima grande parte da liderança urbana do Partido Comunista Chinês.
Perseguidos e dizimados nas cidades, os comunistas que sobrevivem recuam para as regiões rurais do interior. É nesse contexto de fuga e reorganização que emerge a liderança de Mao Zedong — que começa a se tornar o líder em contexto do Partido Comunista Chinês no interior do país. Mao defende exatamente aquela tese que havia sido debatida internamente: a revolução chinesa não seria feita pelos operários urbanos, mas pelos camponeses. E é nas regiões rurais que o partido reconstrói sua força, estabelecendo bases de poder alternativas ao Kuomintang.
Chiang Kai-shek, determinado a eliminar definitivamente os comunistas, lança uma série de campanhas de cerco contra suas bases rurais. Encurralados, os comunistas são forçados a uma retirada estratégica que se tornaria um dos episódios mais lendários de toda a história chinesa: a Longa Marcha. O que começou como uma retirada forçada — o que seria uma breve marcha— transformou-se em uma jornada de mais de um ano, percorrendo milhares de quilômetros pelo interior da China, atravessando montanhas, rios e territórios hostis. Esse é o período da Longa Marcha de 1934-1935, que se tornou, no discurso posterior, um elemento central de legitimação do Partido Comunista Chinês — uma narrativa épica de resistência, sacrifício e determinação que fundou o mito fundador da China comunista. É durante a Longa Marcha que Mao Zedong consolida definitivamente sua liderança dentro do partido, chegando à região de Yan'an, no noroeste, onde os comunistas estabelecem sua nova base.
Enquanto a guerra civil entre comunistas e nacionalistas se desenrolava, uma terceira força entrava em cena de forma cada vez mais ameaçadora: o Japão. Os japoneses haviam ocupado a Manchúria desde o início da década de 1930, instalando ali um Estado fantoche com o último imperador Qing, Puyi, como figura de fachada — um títere dos japoneses para se colocar ali na Manchúria. Chiang Kai-shek, num gesto considerado de traição aos olhos de muitos chineses, havia aceitado a dominação japonesa na Manchúria, preferindo concentrar suas forças contra os comunistas. Esse posicionamento gerou uma crise política interna: um senhor de guerra do norte, que havia sido traído por Chiang Kai-shek nesse processo, chegou a prendê-lo temporariamente para forçá-lo a mudar de postura. Pressionado, Chiang Kai-shek é obrigado a negociar com os comunistas uma frente unida contra os japoneses.
A guerra contra o Japão foi devastadora para a China. Os japoneses avançaram sobre as principais cidades costeiras e do interior, impondo um sofrimento imensurável à população civil. Os japoneses logo perceberam que para interiorizar a campanha contra os chineses seria bastante problemático — o vasto território chinês tornava impossível uma ocupação total. A guerra só terminou em 1945, quando o Japão se rendeu aos aliados após as bombas atômicas lançadas pelos Estados Unidos sobre Hiroshima e Nagasaki. Com a saída japonesa, o palco estava montado para o ato final do conflito entre comunistas e nacionalistas.
A guerra civil que se seguiu foi rápida e decisiva. O Partido Comunista, que havia passado anos construindo sua base entre o campesinato e aprendendo a guerra de guerrilha nas regiões rurais, avançou sobre as cidades uma a uma. Em 1949, todas as principais cidades chinesas já tinham ocupado diante dos comunistas. Chiang Kai-shek e os remanescentes do Kuomintang recuaram para a ilha de Taiwan, onde estabeleceram um governo próprio que persistiu até a morte de Chiang Kai-shek em 1975. E no continente, em 1º de outubro de 1949, Mao Zedong — com seu sotaque pesado, sotaque hunanense, sendo um detalhe vívido dessa história — proclamou, da Praça Tiananmen em Pequim, a fundação da República Popular da China.
Da Revolução ao Mercado: A China de Mao Zedong a Deng Xiaoping
A China recém-proclamada república popular em 1949 — e já com um desafio imediato e imenso pela frente. Proclamar a república era apenas o primeiro passo. O país estava devastado por décadas de guerra civil, invasão japonesa e colapso econômico. A questão que se colocava era: como transformar esse território fragmentado e empobrecido numa nação moderna, soberana e capaz de garantir condições dignas de vida para centenas de milhões de pessoas? A resposta que o Partido Comunista Chinês vai construir ao longo dos anos seguintes é ao mesmo tempo criativa, contraditória e, em alguns momentos, profundamente trágica.
O ponto de partida foi a aliança com a União Soviética. Mao Zedong — que tinha pavor de avião, como é lembrado como sendo um detalhe curioso, tornando a viagem a Moscou a única viagem ao exterior que ele faz — foi buscar junto aos soviéticos a cooperação técnica e econômica que a China precisava urgentemente. O resultado foi o primeiro plano quinquenal de desenvolvimento, que vai de 1950 a 1955. Esse plano já é, por si só, algo notável, visto que técnicos soviéticos chegam à China para ajudar a construir fábricas e infraestrutura industrial, num modelo semelhante ao que a Alemanha havia feito na época de Lenin na União Soviética. Os dois grandes vetores desse primeiro plano são a industrialização acelerada e a reforma agrária — a redistribuição das terras dos grandes proprietários para os camponeses pobres, que representavam a esmagadora maioria da população. Junto a isso, Mao propõe um grande plano pedagógico de estender a alfabetização universal, inspirado no que os soviéticos haviam feito — reconhecendo que um país analfabeto não poderia se modernizar.
No final dos anos 1950, Mao decide acelerar ainda mais o processo. Ele lança um novo plano quinquenal com uma ambição muito maior: intensificar simultaneamente a coletivização agrícola e a produção industrial, mobilizando toda a população num esforço nacional gigantesco. Esse projeto ficou conhecido como o Grande Salto Adiante — ele dá terrivelmente errado. O plano tinha uma dimensão muito macro e enfrentou uma dificuldade micro e brutal: a coletivização forçada desorganizou a produção agrícola, funcionários locais inflavam os números de produção com medo de reportar fracassos às autoridades superiores, e o governo continuava exportando grãos mesmo diante da escassez real no campo. O resultado foi uma das maiores fomes da história humana, ceifando dezenas de milhões de vidas.
O fracasso do Grande Salto Adiante abriu uma crise política profunda dentro do próprio partido. Figuras como o general Peng Dehuai — abertamente crítico a Mao Zedong. — ousaram questionar publicamente as escolhas do líder. Deng Xiaoping e outros líderes mais pragmáticos entenderam que, olha, isso foi uma tentativa de plano muito macro e muita dificuldade micro — era preciso recuar e corrigir os erros. Mao Zedong, percebendo que sua autoridade estava sendo questionada, foi afastado um pouco de lado — mantendo seu prestígio simbólico como fundador da república, mas perdendo influência sobre as decisões cotidianas do partido. Esse afastamento, porém, não durou. Mao era um político de enorme habilidade e determinação, e não aceitaria passivamente ser marginalizado dentro do próprio partido que havia fundado.
A resposta de Mao ao seu afastamento foi a iniciativa mais radical e destrutiva de seu governo: a Revolução Cultural, lançada em 1966 — e o adjetivo carrega todo o peso de sua profundidade e violência. Em sua essência, foi uma tentativa de Mao de retomar o controle do partido mobilizando a juventude chinesa contra os próprios quadros que ele considerava revisionistas. Grupos de jovens foram incitados a atacar tudo que representasse a velha cultura — professores, intelectuais, funcionários do partido, obras de arte, templos e bibliotecas. O terror se instalou na vida cultural e intelectual do país. É também nesse período que se situa uma crise política interna grave, onde o governo descobre que existe uma tentativa de golpe de Liu Shaoqi contra Mao Zedong — um episódio que revela o nível de desconfiança e disputa que havia chegado ao coração do partido. Junto a Mao nesse período radical estava um grupo que ficaria conhecido como a Gangue dos Quatro — figuras que haviam sido os grandes promotores da Revolução Cultural e que queriam continuar na mesma direção a qualquer custo.
Enquanto a China vivia esse turbilhão interno, o cenário geopolítico também se transformava. A relação com a União Soviética havia se deteriorado profundamente — Mao ficou irritado com as críticas de Khrushchev ao legado de Stalin, interpretando-as como fraqueza ideológica. O rompimento sino-soviético obrigou a China a buscar uma nova posição no tabuleiro da Guerra Fria. E é nesse contexto que acontece um dos momentos mais surpreendentes desse período: O presidente americano Nixon vai para Pequim em 1973 — com Mao Zedong já com quase 80 anos de idade. O encontro entre o líder do capitalismo mundial e o presidente da maior república comunista do planeta foi um gesto geopolítico calculado: o que os unia era o adversário comum, a União Soviética. Esse reconhecimento mútuo abriu caminho para que os Estados Unidos reconhecessem a China como membro legítimo do Conselho de Segurança da ONU — um assento que havia sido bloqueado por décadas.
A morte de Mao, em 1976, abriu imediatamente uma crise de sucessão. De um lado estavam os mais radicais da Gangue dos Quatro, que queriam continuar o caminho da Revolução Cultural. Do outro, havia os pragmatistas — aqueles que, eram muito ligados a Zhou Enlai, mas agora estão indo cada vez mais para o moderador Deng Xiaoping. A disputa foi resolvida de forma rápida e decisiva: quando Deng Xiaoping chegou ao poder, ele pega aquela gangue dos quatro, prende todos os quatro — encerrando simbolicamente a era da Revolução Cultural e abrindo uma nova fase na história chinesa.
Deng Xiaoping representava a parte mais pragmatista do Partido Comunista Chinês. Sua avaliação do legado de Mao foi cuidadosamente calibrada: reconheceu os erros graves do Grande Salto Adiante e da Revolução Cultural, mas preservou a figura de Mao como símbolo fundador da república — uma operação política que permitiu ao partido fazer uma transição sem romper com sua própria legitimidade histórica. As reformas econômicas que Deng implementou foram graduais, mas transformadoras. Já em 1980, havia 76 experimentos de reformas micro em regiões que poderiam ter reformas de maior abertura econômica e atividade de mercado em algumas zonas especiais, a principal delas em Guangzhou — o que o mundo conheceria como as Zonas Econômicas Especiais. Laboratórios do capitalismo dentro de um Estado ainda formalmente comunista, essas zonas funcionavam como pontas de lança da abertura econômica, atraindo investimento estrangeiro e testando novos modelos de produção e comércio.
Mas a abertura econômica não veio acompanhada de abertura política — e essa tensão logo produziu seu momento mais dramático. Havia dentro do partido uma figura considerada o sucessor natural de Deng Xiaoping: Hu Yaobao, descrito como muito ligado a Deng Xiaoping e visto pelos setores reformistas como aberto ao diálogo político. Sua morte mobilizou uma geração inteira de estudantes e jovens que haviam crescido num ambiente de reformas econômicas e relativa abertura cultural — e que agora pediam também reformas políticas. A aglomeração de estudantes que protestam pacificamente na Praça Tiananmen, entre outras cidades tornou-se o símbolo dessa demanda. A resposta do governo, porém, foi implacável: a decisão maior de Deng Xiaoping e da elite política é de que eles têm que endurecer — e o exército foi enviado para reprimir os protestos, num episódio que chocou o mundo e que permanece até hoje como um dos momentos mais dolorosos e silenciados da história chinesa recente.
Depois desse episódio de Tiananmen em 1989, você tem um expressivo crescimento sólido da economia chinesa — sinalizando que a repressão política foi acompanhada de uma aceleração das reformas econômicas, como se o partido buscasse compensar o fechamento político com a promessa do crescimento material. Essa combinação — controle político rígido com abertura econômica progressiva — definiria o modelo chinês nas décadas seguintes, sob os sucessores de Deng Xiaoping.
Para aprofundar
Dynastic China — MIT OpenCourseWare (em inglês)
Curso universitário gratuito sobre a história da China desde as primeiras dinastias até aproximadamente 1800, com programa, leituras e materiais didáticos.Aulas em vídeo do curso Dynastic China (em inglês)
Inclui aulas sobre Zhou, Tang, Ming, Qing e outros períodos da história imperial.Aula em vídeo do curso História das Relações Internacionais (USP) - Aula 2 A Antiguidade Meridional e Clássica (em português)
Aula com o professor Peter Demant do Instituto de Relações Internacionais da USP.
Aula em vídeo do curso História das Relações Internacionais (USP) - Aula 10 Os Sistemas Asiáticos: China (em português)
Aula com o professor Peter Demant do Instituto de Relações Internacionais da USP.
Modern China — MIT OpenCourseWare (em inglês)
Curso sobre o imperialismo do século XIX, a queda dos Qing, a invasão japonesa, a Revolução Comunista e a República Popular.Asia for Educators — Universidade Columbia (em inglês)
Portal gratuito com textos introdutórios, documentos históricos, mapas, imagens e materiais acadêmicos sobre China, Japão e outras sociedades asiáticas.China Song: tecnologia, comércio e prosperidade (em inglês)
Módulo interativo sobre cidades, economia, religião, exames, arte e vida cotidiana durante a dinastia Song.Fontes primárias sobre a história chinesa (em inglês)
Seleção de documentos sobre confucionismo, governo imperial, relações diplomáticas, reformas e revoluções.Livro- Visões da China Antiga (em português)
A Importância de estudar a Antiguidade e a China, combatendo a ideia de que o saber histórico deve se restringir a centros hegemônicos ou temas locais.
Diretório com a Coleção de Textos da China Imperial do Projeto Orientalismo (em português)
Diretório no Google Drive com diversos textos da China Imperial
Livro - Mulheres na China Imperial (em português)
A obra busca oferecer um panorama da história das mulheres na China tradicional, destacando tanto a ideologia patriarcal imposta por discursos intelectuais e estatais quanto a resistência e os olhares das próprias mulheres chinesas.
Livro - A China e os chins: recordações de viagem (em português)
Numa época em que mitos e superstições influenciavam a percepção do ocidente sobre o então chamado Extremo Oriente, o diplomata Henrique Carlos Ribeiro Lisboa, secretário da missão especial que o Império do Brasil enviou à China em 1880, fez um registro detalhado de suas impressões de viagem, que cobriram aspectos considerados por seu autor como curiosos, ou interessantes.
Livro - O Planeta China (em português)
Três milênios de dinastias, de grandezas e misérias em que a China nem parecia da terra e nem dos céus e nem dos chineses. Era tudo sem ser nada: ignota, anônima, indecifrável.
Livro - A Ascensão da China como potência: fundamentos políticos internos (em português)
Este trabalho procura analisar as condições políticas internas na China para a atual reascensão do país como potência.
Artigo - Novas Perspectivas para a Historiografia da China Antiga (em português)
Apresenta um panorama atualizado sobre as novas perspectivas historiográficas acerca dos estudos da Antiguidade chinesa desenvolvidos na China continental.
Artigo - Narrar tudo aquilo que está abaixo do Céu (em português)
Este artigo objetiva discutir o papel definidor do conceito de “Céu”, ou tiān 天, na estruturação de uma epistemologia historiográfica chinesa.
Podcast Momento China - USP (em português)
Todos os episódios do podcast Momento China, feito pela Universidade de São Paulo
Filosofia e religião
Confucius — Stanford Encyclopedia of Philosophy (em inglês)
Introdução acadêmica, gratuita e detalhada ao pensamento de Confúcio e às interpretações dos Analectos.Daoism — Stanford Encyclopedia of Philosophy (em inglês)
Discussão sobre a formação histórica das tradições daoistas e suas relações com outras escolas chinesas.Chan Buddhism — Stanford Encyclopedia of Philosophy (em inglês)
Texto acadêmico sobre a formação do budismo Chan na China e sua posterior circulação pelo Leste Asiático.História econômica e imperialismo
Global circulation of silver between Ming–Qing China and the Americas (em inglês)
Artigo científico de acesso aberto que combina documentos históricos e análises materiais para estudar a circulação da prata entre a China e as Américas.The Opium Wars — MIT Visualizing Cultures (em inglês)
Ensaio visual sobre o comércio de ópio, a guerra britânica contra a China e a formação dos tratados desiguais.The Boxer Uprising — MIT Visualizing Cultures (em inglês)
Análise das representações chinesas e ocidentais da Rebelião dos Boxers e da invasão internacional de 1900.Teoria do Conhecimento do filósofo Xun - vol1 (em português)
Teoria do Conhecimento do filósofo Xun - vol2 (em português)
Dao de Jing - O Livro do Caminho e da sua Virtude (em português)
China revolucionária e contemporânea
The Institutional Causes of China’s Great Famine, 1959–61 (em inglês)
Estudo econômico gratuito sobre os mecanismos institucionais que contribuíram para a fome associada ao Grande Salto Adiante.Resolução 2758 da Assembleia Geral das Nações Unidas (em inglês)
Documento original de 1971 sobre a representação da República Popular da China na ONU.A aproximação entre Estados Unidos e China (em inglês)
Documentos e contextualização histórica sobre as negociações que levaram à visita de Nixon em fevereiro de 1972.Four Decades of Poverty Reduction in China (em inglês)
Relatório completo do Banco Mundial sobre as reformas econômicas, a redução da pobreza e os desafios sociais ainda existentes.Artigo - Contribuições da Era Mao Tsé-Tung para a industrialização Chinesa (em português)
Este artigo busca resgatar algumas reformas realizadas por Mao Tsé-Tung (1949-1976) para o processo de industrialização chinesa.
A dinâmica do investimento externo direto na China: uma análise do planejamento e desenvolvimento pós-abertura (em português)
O artigo se propõe fazer uma análise do desenvolvimento de IED na China a partir do planejamento e desenvolvimento, identificando diferentes ciclos conforme o contexto político e os desafios de desenvolvimento chinês.
Direitos de imagem: Yan Yan/Xinhua via AP
PAQUIDERME PUNK bros, vida inteligente na Internet, desde 2017!
