Dez Mitos Sobre Israel - Ilan Pappé
Dica de Livro: Em Dez mitos sobre Israel, o historiador israelense Ilan Pappé desmonta, com rigor histórico, as narrativas que sustentam a versão oficial de Israel sobre a Palestina e o conflito na região, expondo como mitos políticos são usados para justificar ocupação, limpeza étnica e exclusão de direitos.


Conhecendo o Autor
Ilan Pappé nasceu em Haifa, em 1954, e é um dos principais nomes da chamada corrente dos “novos historiadores” israelenses, que revisitaram criticamente a história oficial de Israel a partir de arquivos desclassificados. Atualmente, é professor de história na Universidade de Exeter, no Reino Unido, e dirige o European Centre for Palestine Studies, mantendo uma produção constante sobre o conflito e sobre colonialismo de assentamento.
Sua obra anterior mais conhecida, The Ethnic Cleansing of Palestine, já havia defendido a tese de que a criação de Israel envolveu um processo deliberado de limpeza étnica contra a população palestina, tema que reaparece de forma central em Dez mitos sobre Israel. Pappé se tornou também uma figura pública controversa, tanto em Israel quanto no exterior, por associar explicitamente sionismo, apartheid e práticas de colonialismo no contexto palestino.
Sobre o livro
Em Dez mitos sobre Israel (no original, Ten Myths About Israel), o historiador israelense Ilan Pappé enfrenta de forma direta algumas das narrativas mais repetidas sobre a criação do Estado de Israel e o conflito com o povo palestino. Longe de ser apenas uma revisão acadêmica, o livro funciona como um exercício de demolição de mitos: a terra “vazia” da Palestina, o “povo sem terra”, a suposta equivalência entre sionismo e judaísmo, a ideia de que Israel é “a única democracia do Oriente Médio”, entre outros. Cada capítulo parte de uma frase aparentemente consolidada no senso comum e mostra, com documentação histórica, como ela foi construída e a que interesses políticos serve.
Publicado originalmente em 2017 pela editora Verso, o livro foi pensado no contexto dos 50 anos da ocupação de 1967, e edições mais recentes trazem posfácio atualizado, incluindo reflexões sobre Gaza. Isso faz com que a obra dialogue não só com o passado, mas também com as imagens e discursos que dominam o noticiário internacional hoje.
O livro é organizado em dez capítulos, cada um dedicado a um mito específico, o que torna a leitura didática e, ao mesmo tempo, contundente. Pappé começa pelos mitos de origem – “a Palestina era uma terra vazia” e “os judeus eram um povo sem terra” – mostrando como essas fórmulas simplificadas apagaram a existência de uma sociedade palestina complexa, com cidades, vilas, mercados e vida cultural antes da chegada do movimento sionista. Ao desmontar essas imagens, ele revela o quanto a linguagem (“terra sem povo para um povo sem terra”) não era apenas descrição, mas um programa político para tornar a terra vazia pela expulsão dos habitantes originais.
A partir daí, o autor avança para mitos mais recentes: a equiparação entre sionismo e judaísmo, a ideia de que o sionismo não é colonialismo, a versão oficial de que os palestinos teriam deixado suas casas voluntariamente em 1948, a narrativa da guerra de 1967 como “guerra sem escolha” e o mantra de Israel como “única democracia do Oriente Médio”. Nos capítulos finais, ele revisita o “processo de paz” de Oslo, as narrativas sobre Gaza e a insistência na solução de dois Estados como “único caminho possível”, argumentando que, tal como foi formulada, essa solução nunca esteve realmente orientada pela igualdade de direitos entre israelenses e palestinos.
O grande mérito do livro é mostrar que mitos políticos não são apenas erros de interpretação ou falhas de memória, mas instrumentos ativos de poder. Ao reconstituir documentos, discursos oficiais e decisões militares, Pappé expõe como certas narrativas foram usadas para justificar ocupação, expulsões em massa, regimes de exceção e formas sofisticadas de controle sobre a população palestina. Assim, o livro funciona como um convite a revisar criticamente tudo aquilo que costumamos ouvir sobre Israel e Palestina, especialmente quando essas histórias aparecem embaladas em chavões como “autodefesa”, “processo de paz” ou “ausência de alternativas”.
Não se trata de uma leitura neutra ou “equidistante” – Pappé se posiciona claramente ao lado dos direitos palestinos e defende uma solução de Estado único, democrático, para todos os habitantes da região. Isso pode causar desconforto a leitores acostumados a versões mais tradicionais do conflito, mas é justamente nesse atrito que o livro ganha força: ele obriga a confrontar contradições, silêncios e omissões da narrativa oficial israelense e de boa parte da imprensa ocidental.
Por que ler hoje
Num momento em que imagens de bombardeios, cercos e deslocamentos forçados voltam a ocupar o centro do debate público, Dez mitos sobre Israel ajuda a entender que nada disso começou “do nada” nem pode ser reduzido a fórmulas como “conflito religioso” ou “guerra eterna no Oriente Médio”. Ao mostrar como a história é continuamente reescrita para legitimar políticas presentes, o livro oferece ferramentas para ler com mais cuidado tanto o noticiário quanto as justificativas oficiais para novas operações militares, especialmente em Gaza.
Para quem acompanha cursos, debates e produções acadêmicas sobre o tema – como as aulas que seguem a estrutura dos dez mitos e aprofundam cada um deles – a leitura de Pappé funciona como base teórica e fio condutor. Já para quem está começando agora, o livro é uma porta de entrada potente, porque desmonta, em linguagem acessível, exatamente as frases prontas com que muitas vezes tentamos explicar um conflito extremamente complexo.
Para quem eu indico
Recomendo Dez mitos sobre Israel a quem se interessa por história contemporânea, relações internacionais, direitos humanos e, sobretudo, por narrativas de colonialismo e resistência. É uma obra especialmente importante para leitores que desejam ir além das versões oficiais e estão dispostos a lidar com perguntas difíceis, sem respostas fáceis.
Se o seu objetivo é formar uma opinião informada sobre Israel e Palestina – seja como estudante, pesquisador, ativista ou simplesmente como leitor curioso –, este livro oferece um ponto de partida sólido, crítico e profundamente comprometido com a ideia de que justiça e memória caminham juntas.
