O Crepúsculo Vermelho: Centralismo, Obsolescência e o Colapso da União Soviética

Uma análise profunda da trajetória soviética, desde as raízes da Revolução de 1917 até a sua derrocada em 1991. O artigo investiga como o totalitarismo, o atraso tecnológico frente à Era Digital e as contradições da Perestroika sufocaram o regime e levaram à implosão do império.

HISTÓRIA

Lucknup Haigert

7/20/202637 min read

O Estopim de 1917: Como a Rússia Chegou à Revolução

Sem a Primeira Guerra Mundial, a Revolução Russa de 1917 provavelmente não teria acontecido — ao menos não da forma como aconteceu. Essa frase não é uma provocação retórica; ela é o ponto de partida de uma análise cuidadosa que busca mostrar como a revolução foi o resultado de uma acumulação de contradições históricas profundas, e não um evento súbito ou inexplicável. A Revolução Russa tem raízes, tem causas, tem um contexto que precisa ser compreendido em toda a sua complexidade.

O primeiro elemento fundamental desse contexto é a posição da Rússia no sistema capitalista mundial. No final do século XIX e início do século XX, a Rússia era um país que se encontrava na periferia do capitalismo europeu. Enquanto a Inglaterra, a França e a Alemanha haviam passado por processos robustos de industrialização capitalista, com o surgimento de uma burguesia forte, de um proletariado urbano numeroso e de instituições liberais relativamente consolidadas, a Rússia ainda era um país predominantemente agrário, marcado por estruturas semifeudais, com uma aristocracia fundiária poderosa e uma massa de camponeses vivendo em condições de extrema pobreza. A industrialização russa era incipiente, concentrada em algumas regiões específicas, e o Estado czarista — absolutista e autoritário — resistia a reformas políticas mais profundas.

Esse atraso relativo da Rússia em relação ao centro do capitalismo europeu criava um problema teórico e político de primeira ordem. Para os dois pensadores alemães — Marx e Engels —, a revolução socialista deveria emergir onde o capitalismo havia se desenvolvido mais plenamente nos países do centro europeu, como a Inglaterra e a Alemanha, onde o proletariado industrial era numeroso, organizado e consciente de seus interesses de classe. A ideia era que o capitalismo precisaria amadurecer, desenvolver plenamente suas contradições internas, para que a classe trabalhadora pudesse superá-lo. É por isso que Marx e Engels não concebiam que em países atrasados como a Rússia a revolução socialista pudesse acontecer — ao menos não de forma isolada.

E de fato, Marx via a Rússia com suspeição — o país czarista era visto como uma força reacionária, um bastião do conservadorismo europeu, e não como o terreno mais fértil para a transformação revolucionária. O próprio Marx chegou a demonstrar algum interesse por pensadores russos que buscavam caminhos alternativos. Marx chegou a citar o Chernyshevsky — um intelectual russo que questionava se a Rússia precisaria necessariamente passar pelo mesmo caminho de desenvolvimento capitalista que a Europa ocidental, ou se poderia aproveitar estruturas comunitárias rurais tradicionais como base para uma transformação socialista direta. Essa tensão entre a teoria marxista clássica e as especificidades da realidade russa seria um dos eixos mais produtivos e conflituosos do pensamento revolucionário russo nas décadas seguintes.

É dentro desse quadro teórico que está situado o surgimento do Partido Operário Social-Democrata Russo — o partido que, em seu congresso de 1903, se dividiu entre duas correntes que ficariam conhecidas pelos nomes que refletiam o resultado da votação interna: os bolcheviques (maioria) e os mencheviques (minoria). Essa divisão não era apenas organizacional — ela refletia diferenças profundas sobre como conduzir a luta revolucionária num país periférico como a Rússia. Os mencheviques defendiam "uma revolução mais gradual", mais próxima de uma visão parlamentar e reformista da transformação social. Do outro lado estava Lenin, que sempre fez parte dos bolcheviques — e que defendia um partido de vanguarda, disciplinado e centralizado, capaz de dirigir a classe trabalhadora e os camponeses em direção à revolução. Lenin, tornar-se-ia, o grande líder da Revolução Russa.

Mas a teoria, por mais importante que seja, não explica por si só a eclosão de uma revolução. É preciso entender o que estava acontecendo concretamente na Rússia. A Primeira Guerra Mundial, o conflito que foi o resultado de uma disputa por mercados que haviam se saturado dentro da Europa e essa disputa que se espraiou para outros continentes, redundaria na Primeira Guerra Mundial. A Europa possuía três grandes impérios plurinacionais — o Russo, o Austro-Húngaro e o Otomano —, todos eles sob pressão crescente de forças nacionalistas e sociais que a guerra iria acelerar de forma dramática. E esses três impérios deixam de existir no seio da Primeira Guerra Mundial — um fato de proporções históricas que raramente recebe a atenção que merece.

A Rússia entrou na guerra ao lado da França contra a Alemanha — numa disputa em que ninguém queria uma Alemanha unificada na Europa, pois tinham medo do que a Alemanha poderia fazer. Mas o Czar colocou o Império Russo em guerra sem que o Estado tivesse condições reais de sustentar o esforço bélico. O exército czarista sofreu derrotas sucessivas, as baixas foram imensas, e o abastecimento da população civil colapsou. A Rússia chegou a esse ponto em frangalhos — um Estado que havia apostado no expansionismo militar como forma de legitimar seu poder e havia saído derrotado, sem conseguir responder às demandas crescentes de uma sociedade em transformação.

Em fevereiro de 1917, o regime czarista desmoronou. O que emergiu em seu lugar foi um governo provisório — formado por setores liberais e moderados — que assumiu o poder sem ter condições de resolver nenhum dos problemas fundamentais que haviam derrubado o czar. O erro fatal desse governo foi ter mantido a Rússia na Primeira Guerra Mundial — uma decisão que alienou rapidamente o apoio popular e abriu espaço para os bolcheviques. Enquanto isso, Lenin estava exilado em Genebra, na Suíça — e foi o próprio governo alemão que, estrategicamente, providenciou seu retorno à Rússia num trem lacrado, apostando que Lenin e os bolcheviques poderiam desestabilizar o governo provisório e tirar a Rússia da guerra. A aposta alemã se revelou certeira.

A Revolução Russa de outubro de 1917, onde os bolcheviques realmente derrubaram o governo provisório do Kerensky — e assim a revolução chegou ao seu momento decisivo. É importante ser cuidadoso ao apontar que a tomada do poder em outubro não era, na visão dos próprios bolcheviques, o fim do processo — era apenas um capítulo da Revolução Mundial — Lenin e os bolcheviques acreditavam que a revolução na Rússia seria o estopim de uma revolução mais ampla, que se espalharia pela Europa ocidental, especialmente pela Alemanha. Sem essa revolução mundial, eles sabiam que a revolução russa estaria isolada num país periférico, cercado de inimigos, sem a base industrial e o proletariado desenvolvido que a teoria marxista considerava necessários para a construção do socialismo.

Essa revolução mundial, no entanto, não aconteceu. E é dessa não-realização que nasceram as contradições mais profundas do socialismo soviético.

O Centralismo Democrático de Lênin e a Sombra Prolongada de Stálin

Como podemos analisar o stalinismo sem cair em simplificações? Não se pode fazer uma análise de Stalin de forma apressada ou demonizar o personagem como um monstro isolado, ou, no extremo oposto, relativizando seus crimes em nome dos supostos avanços da União Soviética. O mais sensato é compreender como Stalin chegou ao poder e o que esse poder significou, antes de tudo, a como a estrutura que o tornou possível — e essa estrutura começa com o próprio Lenin e com o conceito de centralismo democrático.

Se eu sei que o Stalin conseguiu, ao fim e ao cabo, se tornar um novo monarca da União Soviética — como isso foi possível dentro de um partido que havia feito uma revolução em nome da emancipação dos trabalhadores? A resposta não é simples, devemos construir o pensamento, começando pelo modelo organizativo que Lenin concebeu para o Partido Bolchevique.

O centralismo democrático era, em sua formulação original leninista, uma tentativa de resolver um problema real e urgente: como organizar um partido revolucionário clandestino numa autocracia czarista, onde a polícia política perseguia ativamente os militantes? Lenin argumentava que um partido que operava nessas condições não podia se dar ao luxo de debates abertos e decisões lentas. Era preciso disciplina, hierarquia e capacidade de ação rápida. A ideia era que o debate interno poderia existir — democrático —, mas que uma vez tomada uma decisão pela direção, todos os membros eram obrigados a segui-la — centralismo. Esse modelo tinha uma lógica defensiva compreensível diante da repressão czarista: infiltrado no partido bolchevique era uma ameaça real, e a necessidade de evitar agentes da polícia secreta justificava o controle rigoroso sobre quem entrava e o que se discutia.

O problema, é que esse modelo organizativo — concebido para condições de clandestinidade e repressão — foi mantido e aprofundado mesmo depois que os bolcheviques chegaram ao poder. E uma vez no poder, o centralismo deixou de ser um mecanismo defensivo para se tornar um instrumento de controle político. A dinâmica que se instalou foi a de "o partido se fundindo ao Estado, o Estado se plasmando com o partido" — uma fusão que eliminou progressivamente os espaços de autonomia política e de debate genuíno. O partido não era mais uma organização que disputava o poder dentro de um campo político mais amplo; ele era o próprio Estado, e o Estado era o partido.

Dentro dessa estrutura, o papel do secretário-geral tornou-se extraordinariamente poderoso. É importante saber como Stalin soube explorar essa posição com maestria política: como secretário-geral do Partido Comunista, Stalin utilizou o cargo — que inicialmente parecia uma função burocrática e administrativa — para controlar as nomeações de cargos em todo o partido e em todo o aparato estatal. Quem controlava os cargos, controlava as lealdades. E quem controlava as lealdades, controlava o partido. Essa foi a alavanca fundamental pela qual Stalin foi, lenta e metodicamente, construindo sua base de poder dentro da própria estrutura do partido. Como secretário-geral do partido, mobilizou cargos — esse foi o caminho pelo qual um homem que muitos de seus contemporâneos subestimavam foi se tornando incontornável.

Mas para entender a ascensão de Stalin, é preciso também entender o que aconteceu com seus adversários — e o mais importante deles foi Trotsky. Trotsky era, em muitos sentidos, o rival mais óbvio de Stalin na disputa pela liderança do partido após a morte de Lenin. Ele havia sido o organizador do Exército Vermelho, o grande orador da revolução, o teórico da revolução permanente. Mas Trotsky cometeu erros políticos graves na disputa interna — subestimou Stalin, recusou alianças que poderiam tê-lo fortalecido e não soube mobilizar sua base no momento certo. O resultado foi uma derrota progressiva: primeiro o afastamento dos cargos de poder, depois o exílio, e finalmente o assassinato — que acabou morto pelo Stalin — em 1940, no México, por um agente soviético que lhe cravou uma picareta na cabeça.

É imprescindível ter a atenção ao fato de que havia, dentro do próprio partido bolchevique, vozes que perceberam o perigo antes que fosse tarde demais. Havia quem conseguiu antever o Stalin — e entre essas vozes estava o próprio Lenin, nos seus últimos meses de vida. O chamado testamento de Lenin — um conjunto de cartas e notas ditadas quando ele já estava gravemente doente — continha alertas explícitos sobre o caráter de Stalin e sobre os riscos que ele representava para a unidade e a saúde do partido. Lenin chegou a recomendar que Stalin fosse afastado do cargo de secretário-geral. Mas o testamento foi suprimido — o centralismo democrático no seio do partido havia criado uma estrutura em que a própria liderança coletiva era incapaz de agir contra o homem que controlava o aparato. O alerta de Lenin chegou tarde demais, e foi ignorado por aqueles que deveriam tê-lo levado a sério.

A proibição das facções e dissensões dentro do partido — uma medida adotada ainda sob Lenin, em 1921, como resposta à crise da guerra civil e ao isolamento da revolução — foi outro elemento estrutural que pavimentou o caminho para o stalinismo. A ideia original era impedir que grupos organizados dentro do partido enfraquecessem a capacidade de ação revolucionária num momento de crise aguda. Mas a proibição das facções significava, na prática, que qualquer oposição interna organizada era ilegítima por definição. E numa estrutura em que o debate organizado era proibido, quem controlava o aparato administrativo — como Stalin — tinha uma vantagem decisiva sobre qualquer opositor que tentasse articular uma alternativa política.

O resultado de todo esse processo foi aquilo pode se entender como uma imagem poderosa e precisa de que Stalin é o novo monarca, porém não como uma metáfora leviana, mas sim como uma transformação estrutural profunda. O líder do partido que havia derrubado o czarismo acabou por reconstituir, sob nova roupagem ideológica, uma forma de poder autocrático que guardava semelhanças perturbadoras com o que havia sido destruído em 1917. O culto à personalidade de Stalin — com sua iconografia onipresente, seus títulos grandiosos e a devoção quase religiosa à personalidade do Stalin que o regime cultivava — era a expressão mais visível dessa reconstituição monárquica dentro de um Estado que se proclamava socialista.

Claro que o stalinismo foi preponderante — mas a questão mais profunda é: o stalinismo foi uma deformação acidental de um projeto revolucionário saudável, ou foi o resultado lógico de certas escolhas organizativas e políticas feitas desde o início? Não existe uma resposta simples a essa pergunta — e é exatamente essa recusa ao simplismo que torna sua análise tão rica. O último secretário-geral do Partido Comunista — Gorbachev, décadas depois — enfrentaria exatamente o mesmo problema estrutural: como reformar um sistema em que o partido e o Estado eram a mesma coisa, sem destruir um ou outro? A resposta a essa pergunta só viria em 1991 — e ela seria o colapso de toda a estrutura.

A Máquina de Terror de Stálin: Estado Policial, Agricultura Coletiva Forçada e GULAGs

A Nova Política Econômica (NEP), a vitória de Stalin após a morte de Lenin, e a política de coletivização forçada da agricultura. Esses três elementos não são independentes — eles formam uma sequência lógica e histórica que explica como a União Soviética passou de um experimento revolucionário aberto para um dos regimes mais repressivos do século XX. E para compreender essa passagem, é preciso começar pelo momento em que a revolução ainda buscava seu caminho.

Após a guerra civil e o fracasso das esperanças de uma revolução mundial, Lenin tomou uma decisão que surpreendeu muitos de seus companheiros: recuou. A Nova Política Econômica foi uma concessão pragmática à realidade. Num país devastado pela guerra, com a produção agrícola em colapso e a população faminta, Lenin reconheceu que forçar a coletivização imediata seria suicida. A NEP permitia uma certa atividade de mercado, especialmente no campo — os camponeses podiam produzir, vender seus excedentes e acumular alguma riqueza dentro de limites controlados pelo Estado. Surgiu assim uma camada de camponeses relativamente prósperos, conhecidos como kulaks, que prosperaram durante o período da NEP. Durante a NEP, havia criado condições para que esses camponeses se tornassem produtores relevantes — mas também alvos políticos no futuro.

A questão que dividia o partido era precisamente esta: a NEP era uma solução temporária ou um caminho de longo prazo? Havia dentro do partido bolchevique um debate intenso sobre o que fazer com a NEP. E é nesse debate que a figura de Stalin começa a se revelar com toda a sua habilidade política. Stalin faz um discurso no começo da década de 30 falando justamente sobre isso — sobre a necessidade de industrializar a União Soviética a qualquer custo, e sobre os perigos que cercavam o país. O argumento de Stalin era poderoso e direto: a União Soviética estava cercada de inimigos capitalistas, e se não se industrializasse rapidamente, seria esmagada. “Ou nós fazemos isso em dez anos, ou seremos destruídos" — essa era, em essência, a lógica que Stalin usava para justificar a velocidade brutal das transformações que impunha.

Para entender por que Stalin conseguiu convencer — ou impor — esse caminho, é preciso entender quem era esse homem. Ele era filho de uma família de origem humilde — filho de um sapateiro e de uma lavadeira, nascido na Geórgia, numa região periférica do Império Russo. Essa origem não era irrelevante: ela moldou um caráter marcado pela desconfiança, pela dureza e por uma determinação quase feroz de não ser subestimado. Stalin havia sido recriminado em diversas ocasiões por companheiros que o viam como um organizador competente, mas sem a estatura intelectual de Lenin ou Trotsky. Essa subestimação alimentou nele uma capacidade de guardar rancores e de agir com paciência calculada — esperando o momento certo para golpear os adversários. E Stalin soube se aproveitar disso — da estrutura burocrática do partido, do controle dos cargos, da fusão entre partido e Estado — para construir um poder que nenhum de seus rivais conseguiu deter.

Com Stalin firmemente no controle, a NEP foi encerrada e substituída por um projeto radicalmente diferente: a coletivização forçada da agricultura. A lógica era aparentemente simples — para industrializar o país rapidamente, era preciso extrair recursos do campo. As fazendas individuais seriam reunidas em grandes fazendas coletivas controladas pelo Estado, que poderia então organizar a produção de forma centralizada, extrair os excedentes e usá-los para financiar a industrialização. O problema é que esse projeto foi implementado com uma velocidade e uma brutalidade que destruíram a estrutura produtiva do campo antes que qualquer alternativa pudesse ser construída.

Os kulaks — os camponeses relativamente prósperos que haviam prosperado durante a NEP — tornaram-se o inimigo de classe por excelência do stalinismo. Havia uma narrativa oficial de que os kulaks eram sabotadores da revolução, que escondiam grãos para enfraquecer o Estado soviético. E de fato, muitos kulaks escondem sua produção de grãos debaixo da terra — não como ato político consciente, mas como reação desesperada à confiscação forçada de suas colheitas. Essa resistência foi usada pelo regime como justificativa para uma repressão cada vez mais brutal: os kulaks foram deportados em massa para a Sibéria, seus bens foram confiscados, e qualquer resistência era tratada como contrarrevolução.

O resultado mais devastador dessa política foi a fome — o Holodomor — a fome catastrófica que assolou a Ucrânia no início dos anos 1930. A coletivização forçada havia desorganizado completamente a produção agrícola ucraniana, uma das regiões mais férteis da União Soviética. E mesmo diante da escassez, o Estado continuava confiscando grãos para cumprir as metas dos planos quinquenais e para exportar em troca de divisas para financiar a industrialização. O resultado foi uma fome de proporções imensas, que ceifou milhões de vidas — e que muitos historiadores e governos reconhecem hoje como um genocídio deliberado contra o povo ucraniano. Esse episódio está situado dentro do quadro mais amplo da coletivização forçada, mostrando como a lógica do plano econômico foi colocada acima da vida humana de forma sistemática e consciente.

A industrialização que Stalin buscava financiar com esses recursos humanos e materiais foi, em termos puramente quantitativos, impressionante. A União Soviética cria a sua indústria ao longo dos planos quinquenais — e de fato, a URSS passou de uma economia predominantemente agrária para uma potência industrial em poucas décadas. Mas essa conquista em seu contexto real, foi construída sobre uma base de sofrimento humano imensurável, com trabalho forçado, deportações em massa e uma repressão que não poupava nem os próprios membros do partido.

É aqui que devemos ter em mente o conceito central de GULAG. O GULAG era o sistema de campos de trabalho forçado que se espalhava por todo o território soviético, com especial concentração na Sibéria e em outras regiões remotas e inóspitas. Não era apenas uma prisão — era um sistema de exploração econômica de seres humanos, onde os prisioneiros eram usados como força de trabalho em condições desumanas para construir canais, estradas, minas e fábricas. Quem entrava nos GULAGs eram não apenas criminosos comuns, mas sobretudo "inimigos do povo" — uma categoria tão ampla e tão arbitrária que podia incluir qualquer pessoa que o regime decidisse eliminar ou neutralizar.

A extensão do terror stalinista no cotidiano da sociedade soviética é capturada com uma precisão perturbadora com o tipo de punição que o regime impunha às pessoas comuns. No auge dos expurgos, da grande massa de deportações para a Sibéria, prisões, torturas, fuzilamentos, uma pessoa podia pegar de 10 a 20 anos por fazer uma piada sobre Stalin, por desligar o rádio quando Stalin falava continuamente. Essa frase diz tudo sobre a natureza do Estado policial stalinista: o terror não era apenas uma ferramenta usada contra adversários políticos organizados — ele penetrava no tecido mais cotidiano da vida social, criando uma atmosfera de medo generalizado em que qualquer gesto, qualquer palavra, qualquer silêncio poderia ser interpretado como traição. A delação tornou-se uma prática disseminada — vizinhos denunciavam vizinhos, filhos denunciavam pais, colegas de trabalho denunciavam uns aos outros — porque não denunciar podia ser interpretado como cumplicidade.

O Estado policial stalinista funcionava como um "Estado dentro do Estado" — uma estrutura paralela de poder, centrada nos órgãos de segurança, que operava com lógica própria e que não prestava contas nem mesmo às estruturas formais do partido. Essa característica é fundamental para entender como o stalinismo se sustentou por tanto tempo: o terror não era apenas externo, imposto de cima para baixo — ele estava internalizado na própria estrutura do Estado, criando uma dinâmica de auto-reprodução em que cada órgão, cada funcionário, cada célula do partido tinha incentivos para demonstrar lealdade através da denúncia e da repressão.

Uma comparação que é ao mesmo tempo analítica e moralmente exigente é o fato de o estalinismo ser comparado muitas vezes ao Estado nazista. Essa comparação não é feita de forma leviana. Existe um debate historiográfico sério sobre o conceito de totalitarismo — a ideia de que, apesar de suas diferenças ideológicas radicais, o nazismo e o stalinismo compartilhavam estruturas de dominação semelhantes: o partido único, o culto ao líder, o Estado policial, a eliminação de qualquer espaço de autonomia individual ou coletiva, e o uso sistemático do terror como instrumento de governo. O Estado stalinista havia construído um aparato estatal totalitário — e ao reconhecer isso não é fazer concessão ao anticomunismo de direita, mas sim ser honesto com a história e com as vítimas desse sistema.

O Preço da Vitória: A URSS na Segunda Guerra e o Tabuleiro da Guerra Fria

A União Soviética chegou à Segunda Guerra Mundial como um Estado que havia se industrializado por meio de um planejamento central draconiano com os planos quinquenais do Stalin — ou seja, a base industrial que permitiria ao país sobreviver ao maior conflito da história humana havia sido construída ao custo de sofrimento imensurável, sobre os ossos dos camponeses coletivizados e dos prisioneiros dos GULAGs. Essa contradição — entre o horror do processo e a necessidade de seus resultados — é aqui, que devemos focar a nossa análise no decorrer das próximas ideias.

Para compreender o papel da União Soviética na Segunda Guerra Mundial, devemos começar por um momento que ainda hoje gera controvérsia e desconforto: o Pacto Ribbentrop-Molotov. Em julho de 1939, numa das viradas diplomáticas mais surpreendentes do século XX, a Alemanha nazista e a União Soviética — dois regimes que se haviam xingado, acusado e retaliado mutuamente desde suas origens — firmaram um acordo de não-agressão. O nome do pacto carrega os sobrenomes dos respectivos ministros das relações exteriores, Vyacheslav Molotov, da União Soviética, e Joachim von Ribbentrop, da Alemanha nazista. Deve-se ter cuidado ao contextualizar esse momento, pois Stalin tentou, em enorme medida, pactuar com França, Inglaterra e mesmo Estados Unidos contra a Alemanha nazista — mas as potências ocidentais, desconfiando da União Soviética e apostando que Hitler poderia ser contido por outros meios, recusaram ou ignoraram as aproximações soviéticas. Diante desse isolamento diplomático, Stalin optou pelo pacto com o próprio inimigo.

Stalin teria o machado atrás das costas e o Hitler um punhal, porque era um pacto destinado à violação, porque a Alemanha nazista e a União Soviética se odiaram desde sempre, se xingaram, se retaliaram, se acusaram. Nenhum dos dois lados acreditava genuinamente na durabilidade do acordo — era uma trégua calculada, um tempo comprado para preparar o inevitável confronto. E do ponto de vista soviético, o pacto cumpriu sua função, pois, deu dois anos de grande respiro para a União Soviética continuar o seu avanço industrial radical — dois anos preciosos de industrialização acelerada, de produção de armamentos, de reorganização do exército que havia sido devastado pelos expurgos stalinistas. Do ponto de vista alemão, o pacto também tinha uma lógica clara, Adolf Hitler procurava acabar com o problema que a Alemanha enfrentou durante a Primeira Guerra — a guerra em duas frentes simultaneamente, que havia sido um dos fatores decisivos na derrota alemã de 1918. Com o pacto, Hitler podia concentrar suas forças a oeste, conquistar a França e a Europa ocidental, antes de voltar suas atenções para o leste.

A assinatura do pacto durou quase dois anos, de julho de 1939 a junho de 1941 — e foi exatamente em junho de 1941 que Hitler decidiu violá-lo. Isso aconteceu em com a Operação Barbarossa — a maior invasão terrestre da história militar, com mais de três milhões de soldados alemães avançando simultaneamente em três grandes frentes sobre o território soviético. O início da Operação Barbarossa dá a dimensão de que o Hitler teria vitória aparentemente fácil e rápida — e de fato, nos primeiros meses, o avanço alemão foi devastador. O Exército Vermelho, ainda se recuperando dos expurgos que haviam eliminado grande parte de sua liderança militar, recuou em desordem. Cidades inteiras foram cercadas, exércitos inteiros foram capturados. A velocidade e a potência da Wehrmacht — o exército alemão — pareciam confirmar a expectativa de uma vitória rápida.

Mas a guerra no leste não seria rápida. E é aqui que a reflexão necessária vai muito além da análise militar convencional, uma guerra não é feita apenas e simplesmente. de poder bélico e tecnologia. A guerra é feita de moral, de psicologia, de determinação, de vontade de resistir. E foi exatamente essa dimensão moral que começou a mudar o curso da guerra no leste. Havia algo na resistência soviética que não podia ser explicado apenas pela superioridade numérica ou pela vantagem logística. Era uma combinação de fatores: o apego à terra, o horror diante do que o nazismo representava para os povos eslavos — que a ideologia nazista classificava como sub-humanos, destinados ao extermínio ou à escravidão —, e uma capacidade de sofrimento e sacrifício que surpreendeu os próprios alemães. A guerra é feita de moral e pode ser muito importante para ganhar batalha — essa dimensão psicológica e humana da guerra é um dos elementos analíticos que devemos considerar em nossos estudos.

O ponto de virada decisivo foi a batalha de Stalingrado, que foi o confronto mais brutal da história militar, sendo uma batalha urbana de meses, travada rua a rua, prédio a prédio, em condições de frio extremo e escassez absoluta. A Operação Anel foi o movimento soviético de cerco que encurralou o Sexto Exército alemão dentro da cidade — e a rendição do marechal Paulus em fevereiro de 1943 marcou o ponto em que a guerra no Leste deixou de ser uma retirada soviética para se tornar um avanço implacável em direção a Berlim. Foi com certeza a maior batalha de tanques da história — a batalha de Kursk, que consolidou a virada estratégica soviética e mostrou que o Exército Vermelho havia se tornado uma força capaz de enfrentar e derrotar a Wehrmacht em campo aberto.

A vitória soviética na Segunda Guerra Mundial teve um custo absolutamente central para entender tudo o que viria depois, a União Soviética perdeu dezenas de milhões de pessoas no conflito — uma proporção de mortes que nenhum outro país beligerante sequer se aproximou. Essa experiência de sofrimento coletivo sem paralelo moldou profundamente a mentalidade soviética no pós-guerra, criando uma obsessão com a segurança das fronteiras e com a criação de um cinturão de países aliados na Europa Oriental que funcionasse como barreira contra qualquer nova invasão vinda do Oeste. Foi essa lógica — e não apenas o expansionismo ideológico — que explicou a forma como Stalin tratou os países da Europa Oriental após a vitória, transformando-os em países satélites sob controle soviético, que dentro da dinâmica futura, seria a Guerra Fria.

A transição da aliança de guerra para o confronto da Guerra Fria foi rápida e brutal. As conferências do pós-guerra — incluindo as de Potsdam, onde houve a divisão da Alemanha e a divisão de Berlim — revelaram rapidamente que os aliados de ontem eram os adversários de hoje. Foi Winston Churchill quem cunhou, num famoso discurso nos Estados Unidos em 1946 na cidade do Missouri, a expressão que definiria toda uma era: "Iron Curtain" — a Cortina de Ferro — para descrever a divisão da Europa entre o bloco capitalista ocidental e o bloco socialista oriental. De um lado, a União Soviética, comandando o bloco de países socialistas; do outro, os Estados Unidos comandando os países capitalistas. Estava estabelecida a arquitetura bipolar do mundo que duraria até 1991.

O elemento que transformou essa rivalidade política e ideológica numa ameaça existencial para toda a humanidade foi a bomba atômica. Os Estados Unidos haviam usado a arma nuclear contra o Japão em 1945, e esse gesto não era apenas militar — era também um recado político para a União Soviética sobre a nova hierarquia de poder no mundo. A resposta soviética foi imediata e determinada: "a União Soviética tinha que ter a bomba atômica" — e para isso mobilizou todos os recursos disponíveis, incluindo uma rede de espionagem que havia infiltrado o projeto Manhattan americano. O resultado foi que em 1949 a União Soviética domina a criação da bomba atômica — e com isso, a Guerra Fria adquiriu sua dimensão mais aterrorizante: dois blocos armados com armas capazes de destruir a civilização humana, presos numa lógica de dissuasão mútua em que a paz dependia da certeza de que qualquer ataque seria respondido com destruição total.

É dentro desse quadro que a figura de Khrushchev, o sucessor de Stalin surge — ele assumiria o poder após a morte do ditador em 1953 e tentaria navegar as complexidades da Guerra Fria com uma combinação de confronto e coexistência que definiria a próxima fase da história soviética.

Entre a Desestalinização e a Estagnação: O Regime Soviético pós-Stálin

A tentativa de construção do “socialismo real”, acabou há pouco mais de 30 anos, no dia 26 de dezembro de 1991 — e esse experimento durou antes, portanto, de a União Soviética completar 70 anos de idade. É com esse horizonte crítico e honesto que o vamos mergulhar no período que vai da morte de Stalin ao fim da era Brejnev.

O ponto de partida é a morte de Stalin, em 1953, e a crise de sucessão que ela desencadeou. O período imediatamente posterior à morte do ditador foi marcado por uma disputa intensa dentro da cúpula do partido. Uma das figuras que emergiu nesse momento foi Lavrenti Pavlovich Beria — o chefe da polícia secreta, o homem que havia operado o aparato de terror stalinista. Beria era temido por todos os membros do partido que haviam sobrevivido ao terror justamente porque sabiam o que ele era capaz de fazer. Ele foi rapidamente neutralizado — preso e executado pelos próprios companheiros de partido que não podiam permitir que o chefe da polícia secreta assumisse o controle total do Estado.

Foi nesse contexto de disputa que emergiu Nikita Khrushchev, que tinha origem ucraniana — um detalhe biográfico que tem a intenção analítica, especialmente considerando que a Ucrânia havia sido uma das regiões mais devastadas pela coletivização forçada e pelo Holodomor. Além disso, ele que tem origem camponesa — assim como Stalin havia vindo de origens humildes, Khrushchev também não pertencia à elite intelectual do partido. Essa origem moldou sua sensibilidade política de formas específicas: ele havia visto de perto o sofrimento que as políticas stalinistas haviam causado às populações rurais, e isso alimentou em parte sua disposição para romper com o legado de Stalin.

O gesto mais dramático e historicamente significativo de Khrushchev foi o seu discurso secreto no XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, em 1956, onde Khrushchev denunciou os crimes do stalinismo — numa fala que chocou os delegados presentes e que, apesar do nome "secreto", acabou vazando e repercutindo em todo o mundo comunista. Khrushchev denunciou o culto à personalidade de Stalin, os expurgos, as deportações em massa, os assassinatos de membros do próprio partido — crimes que ele mesmo havia testemunhado e, em certa medida, participado como membro da cúpula stalinista. Esse discurso inaugurou o processo que ficou conhecido como desestalinização — uma tentativa de reformar o sistema sem destruir suas bases, de reconhecer os crimes do passado sem questionar a legitimidade do partido que os havia cometido.

A desestalinização teve consequências práticas imediatas e profundas. Como havia uma demanda muito grande por habitação na União Soviética, lançou um ambicioso programa de construção de moradias populares — os famosos blocos de apartamentos que ainda hoje marcam a paisagem das cidades russas e dos países da antiga órbita soviética. Esses edifícios, conhecidos informalmente como "Khrushchevki", eram simples, funcionais e produzidos em série — mas representavam algo que milhões de famílias soviéticas nunca haviam tido: um apartamento próprio, com privacidade, longe das antigas comunidades coletivas onde várias famílias dividiam um mesmo espaço. O programa de habitação de Khrushchev foi, nesse sentido, uma das realizações mais concretas e mais sentidas pela população soviética comum.

Mas Khrushchev não se limitou às reformas internas. No plano geopolítico, ele presidiu um dos momentos mais tensos e ao mesmo tempo mais fascinantes da Guerra Fria. A União Soviética sob Khrushchev foi a responsável pelo lançamento do Sputnik — o primeiro satélite artificial a orbitar a Terra, em 1957. O lançamento do Sputnik foi um choque para o mundo ocidental, que de repente percebeu que a União Soviética havia alcançado — e em certos aspectos superado — a capacidade tecnológica estadunidense. A corrida espacial que se seguiu foi, ao mesmo tempo, uma competição tecnológica e uma batalha simbólica pela supremacia ideológica entre os dois blocos.

O momento mais perigoso do período Khrushchev — e talvez de toda a Guerra Fria — foi a Crise dos Mísseis de Cuba, em 1962. Khrushchev se envolveu numa aposta arriscada, ao instalar mísseis nucleares soviéticos em Cuba, a apenas 150 quilômetros das costas estadunidense, em resposta à presença de mísseis dos Estados Unidos na Turquia, próximos às fronteiras soviéticas. Por treze dias, o mundo esteve à beira de uma guerra nuclear. Khrushchev conseguiu arrancar dos Estados Unidos um compromisso de não invadir Cuba e de retirar os mísseis da Turquia — o que foi, do ponto de vista soviético, uma vitória diplomática real, ainda que apresentada ao mundo ocidental como um recuo. Mas Khrushchev depois dessa crise saiu politicamente enfraquecido dentro do próprio partido — os setores mais conservadores da cúpula soviética interpretaram sua disposição para negociar com Kennedy como fraqueza, e esse enfraquecimento político contribuiu para sua queda em 1964, quando foi deposto num golpe palaciano pelos membros do Politburo — órgão supremo de formulação de políticas do Partido Comunista da União Soviética — que ele mesmo havia nomeado.

Com a saída de Khrushchev, assume o poder Leonid Brejnev — e com ele começa o período dos anos de estagnação. A estagnação não era apenas econômica — era também política e social. Na verdade, o padrão de vida soviético ficou estagnado, mas a população soviética havia desenvolvido um conjunto de expectativas e de seguridades que, embora modestas pelos padrões ocidentais, representavam uma estabilidade real em comparação com o terror stalinista. Havia emprego garantido, habitação subsidiada, saúde e educação públicas — e não havia termo de comparação possível com o padrão de consumo e vida que o capitalismo ocidental oferecia, simplesmente porque a maioria dos soviéticos não tinha acesso a essa comparação. A televisão e o rádio eram controlados pelo Estado, e a informação sobre o mundo exterior era filtrada e manipulada.

Essa estabilidade aparente, porém, escondia uma deterioração progressiva que se tornaria fatal nas décadas seguintes. O sistema soviético havia se tornado profundamente burocrático e conservador — incapaz de inovar, de responder às demandas de uma população que, com o tempo, ia tendo mais acesso à informação sobre o mundo exterior. A "estagnação" do período Brejnev não era apenas uma metáfora econômica, era uma paralisia sistêmica, em que o partido havia se transformado numa casta de privilégios, a nomenklatura, que defendia seus interesses corporativos acima de qualquer projeto de transformação social.

No plano externo, o período Brejnev foi marcado pela invasão do Afeganistão, que a União Soviética conduziu "de forma imperialista". A invasão, iniciada em 1979, foi justificada como apoio a um governo aliado ameaçado por forças contrarrevolucionárias — mas na prática foi uma ocupação militar de um país soberano que resistiu com ferocidade, apoiado pelos Estados Unidos e por outros países. A guerra do Afeganistão tornou-se o "Vietnã soviético" — um conflito que drenou recursos, vidas e, acima de tudo, legitimidade moral do regime. Apesar dessa guerra, esses anos formam aquilo que nós poderíamos chamar de “anos relativamente pacíficos" em comparação com o terror stalinista — o que diz muito sobre o quanto o terror havia sido normalizado como parâmetro de comparação dentro da história soviética.

O período que vai da morte de Brejnev, em 1982, até a chegada de Gorbachev ao poder, em 1985, foi marcado por uma sequência acelerada de líderes idosos e doentes — Iuri Andropov e Konstantin Chernenko — que morreram no cargo sem conseguir oferecer qualquer resposta à crise estrutural que se aprofundava. Esse momento foi o prelúdio inevitável para o que viria a seguir: a tentativa de Gorbachev de reformar o sistema através da perestroika e da glasnost — que veremos em seguida. O padrão de vida que o mundo ocidental oferecia começou a aparecer para a população soviética, que agora começava a fazer comparações que o regime não conseguia mais suprimir.

O Limite do Modelo Soviético perante a Terceira Revolução Industrial

A guerra atual entre Rússia e Ucrânia — que começou em 24 de fevereiro de 2022 até o momento do post desse artigo — não pode ser compreendida sem entender o que foi a União Soviética, como ela cresceu, como entrou em crise e como seu colapso deixou um legado de tensões que ainda hoje moldam o mundo. É com essa consciência da atualidade do passado que o tema central dessa fase se faz necessário, é uma crise econômica fundamental que começou a se desenhar nas décadas de 1960 e 1970 e que foi, em última análise, uma das causas mais profundas do colapso soviético de 1991.

O ponto de partida analítico é a distinção conceitual fundamental, ou seja, a diferença entre industrialização extensiva e industrialização intensiva. Essa distinção é a chave para entender tanto o apogeu quanto o declínio da economia soviética. E é importante entender a primeira industrialização soviética — porque ela foi, em sua natureza, uma industrialização extensiva. Foi uma industrialização que cresce pela adição de mais recursos — mais trabalhadores, mais matérias-primas, mais fábricas, mais terra cultivada. É o modelo que a União Soviética adotou sob Stalin, com os planos quinquenais, onde conseguiu mobilizar enormes contingentes humanos e recursos naturais para construir uma base industrial do zero, em tempo recorde. Esse modelo funcionou — e funcionou de forma impressionante. A União Soviética passou de uma economia predominantemente agrária para uma economia de base profunda e maciçamente industrial em poucas décadas, algo que nenhum outro país havia conseguido fazer com tal velocidade.

O problema é que a industrialização extensiva tem um limite natural. Ela depende da disponibilidade crescente de recursos — e os recursos são finitos. Quando a mão de obra rural já foi absorvida pelas cidades, quando as terras cultiváveis já foram incorporadas à produção, quando as reservas minerais mais acessíveis já foram exploradas, o modelo extensivo começa a perder força. Para continuar crescendo, uma economia precisa fazer uma transição: deixar de crescer pela quantidade e começar a crescer pela qualidade, pela inovação, pela eficiência, pela tecnologia. Essa é a industrialização intensiva. E é exatamente essa transição que a União Soviética não conseguiu fazer.

A economia soviética ia formando um paquiderme gigantesco com várias instâncias burocráticas — uma imagem poderosa que captura a essência do problema. A estrutura de planejamento central soviética, representada pela Gosplan — o órgão responsável por todas as decisões econômicas da União Soviética —, havia funcionado razoavelmente bem para coordenar uma industrialização extensiva de larga escala. Mas à medida que a economia se tornava mais complexa, com milhares de produtos diferentes, cadeias de produção intrincadas e necessidades cada vez mais diversificadas, a capacidade do planejamento central de processar toda essa informação e tomar decisões eficientes foi se deteriorando. A decisões da economia soviética eram tomadas pela Gosplan — um único órgão central tentando gerenciar uma economia continental de enorme complexidade, sem os mecanismos de preço e de incentivo que permitem às economias de mercado processar informação de forma descentralizada.

Dentro dessa estrutura burocrática, criou-se uma dinâmica perversa de incentivos. Os gestores de fábricas e empresas estatais eram avaliados pelo cumprimento das metas estabelecidas pelo plano — e aprenderam rapidamente que a melhor forma de cumprir essas metas não era inovar, não era arriscar, não era buscar formas mais eficientes de produzir. Era, ao contrário, negociar metas baixas com os burocratas do plano, garantir o cumprimento dessas metas modestas e evitar qualquer surpresa que pudesse chamar atenção negativa. A inovação, nesse contexto, era perigosa — porque exigia mudanças, criava incertezas e podia resultar em falhas que seriam punidas. O resultado foi uma economia que, entra num período de estagnação durante a década de 70, e que havia perdido progressivamente sua capacidade de se renovar tecnologicamente.

É nesse contexto que o cerne do nosso estudo chega até a Terceira Revolução Industrial. Enquanto a União Soviética estava presa em seu modelo de industrialização extensiva e em sua burocracia econômica crescente, o mundo capitalista ocidental estava passando por uma transformação tecnológica de enorme profundidade — aquilo que se chamou de terceira revolução industrial no ocidente. Essa revolução, baseada na microeletrônica, na informática e nas tecnologias de comunicação, estava transformando radicalmente a forma como as economias capitalistas produziam, inovavam e competiam. A flexibilidade, a velocidade de adaptação e a capacidade de processar informação que as novas tecnologias exigiam eram exatamente os atributos que o sistema soviético de planejamento central não tinha — e não podia ter, dada sua estrutura burocrática e sua lógica de incentivos. A necessidade de mudar o sistema de planta industrial para adaptar-se à terceira revolução industrial era algo que o sistema soviético simplesmente não conseguia fazer com a velocidade e a flexibilidade necessárias do mundo tecnológico, enquanto o mundo se transformava cada vez mais rápido, a União Soviética ficou para trás.

Mas a crise econômica soviética não se devia apenas à incapacidade de acompanhar a revolução tecnológica ocidental. Havia um fator adicional: a dependência do petróleo. A União Soviética era um dos maiores produtores de petróleo do mundo, e as receitas da exportação de hidrocarbonetos haviam se tornado uma fonte crucial de financiamento para o Estado soviético. Quando os preços do petróleo estavam altos — como estiveram durante boa parte dos anos 1970, após os choques do petróleo —, essa receita permitia ao regime manter um padrão de vida razoável para a população e financiar a corrida armamentista com os Estados Unidos sem que as contradições estruturais da economia se tornassem insustentáveis. Quando os preços do petróleo caíram na década de 1980, essa vulnerabilidade se tornou fatal.

Ao mesmo tempo em que a economia estagnava e a dependência do petróleo crescia, a União Soviética continuava gastando proporções enormes de seu produto interno bruto na corrida armamentista com os Estados Unidos. Havia a dimensão da corrida armamentista e aeroespacial — e essa dimensão era avassaladora. A União Soviética havia construído conquistas extraordinárias nessa área: o lançamento do Sputnik, a corrida espacial, o desenvolvimento de um arsenal nuclear que rivalizava com o estadunidense. Mas manter e expandir esse arsenal exigia recursos que a economia soviética, já em dificuldades, tinha cada vez menos condições de fornecer sem sacrificar o padrão de vida da população. E quando o presidente americano Ronald Reagan lançou a chamada "Corrida das Estrelas" — um programa de defesa espacial de custos astronômicos —, a pressão sobre a economia soviética se tornou ainda mais intensa. A União Soviética se viu diante de uma escolha impossível: competir militarmente com os Estados Unidos ao custo de aprofundar ainda mais a crise econômica interna, ou recuar na corrida armamentista e admitir uma derrota estratégica.

O resultado de todas essas pressões acumuladas foi uma estagnação, que ia se aprofundar progressivamente ao longo das décadas de 1970 e 1980. Essa estagnação não era apenas econômica — era também moral e política. A promessa original da revolução — de construir uma sociedade mais justa, mais igualitária, mais livre — havia se transformado, ao longo de décadas de burocracia, repressão e estagnação, num establishment que defendia seus próprios privilégios. O partido que havia prometido a emancipação dos trabalhadores havia se tornado a principal força de bloqueio de qualquer transformação real.

Os Limites da Perestroika e da Glasnost:

A Desintegração da União Soviética

O ponto de partida é Mikhail Gorbachev — o último secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética, que chegou ao poder em 1985 herdando um Estado em crise profunda. A estagnação econômica, a incapacidade de acompanhar a Terceira Revolução Industrial, a dependência do petróleo e o peso insustentável da corrida armamentista. Gorbachev era um homem que compreendia a gravidade do problema — e que, diferentemente de seus predecessores imediatos, tinha disposição real para enfrentá-lo. O que estava em jogo com as mudanças econômicas que o Gorbachev queria fazer?

Gorbachev lançou dois projetos complementares que se tornaram os símbolos de seu governo e de toda uma era: a perestroika e a glasnost. A perestroika — que em russo significa literalmente "reestruturação econômica" — era o projeto de reformar o sistema produtivo soviético, introduzindo elementos de descentralização, de incentivo à iniciativa e de maior responsabilidade dos gestores pelos resultados de suas empresas. A ideia não era abandonar o socialismo — era torná-lo mais eficiente, mais capaz de responder às demandas de uma economia moderna. A glasnost, por sua vez — significa "transparência", especificamente "a transparência das informações" e "a transparência dos meandros políticos" — era o projeto de abrir o debate público, permitir a crítica, deixar que a sociedade soviética olhasse para si mesma com honestidade. Gorbachev pensou na glasnost como um instrumento indispensável para a perestroika funcionar — porque sem transparência, sem crítica, sem a possibilidade de identificar e corrigir os erros, nenhuma reforma econômica real poderia se sustentar.

A lógica de Gorbachev era, em seus próprios termos, impecável, para vencer a inércia de grupos bem poderosos que resistiam às reformas dentro do próprio partido e do aparato estatal, era preciso mobilizar a sociedade. A glasnost era, nesse sentido, uma arma política — uma forma de criar pressão popular a favor das reformas, contornando a resistência da nomenklatura conservadora que preferia a estagnação à mudança. A glasnost dava oportunidade, a abertura política — ela permitia que vozes antes silenciadas pudessem se expressar, que críticas antes proibidas pudessem ser formuladas publicamente, que a história soviética — incluindo seus crimes e suas tragédias — pudesse ser discutida abertamente.

Mas a glasnost produziu um efeito que Gorbachev não havia calculado completamente — ou que havia calculado mal. Quando se abre o espaço para a crítica num sistema que havia suprimido toda forma de expressão autônoma por décadas, não é possível controlar o que emerge. A transparência que Gorbachev havia pensado como instrumento de reforma controlada tornou-se um processo que se alimentava de si mesmo e que ia muito além do que o reformador havia previsto. Nações inteiras que compunham a União Soviética — os países bálticos, a Ucrânia, a Geórgia, as repúblicas da Ásia Central — começaram a usar o espaço aberto pela glasnost para articular demandas de autonomia e, progressivamente, de independência. A história das deportações, das fomes forçadas, das ocupações militares — tudo aquilo que havia sido silenciado pela repressão soviética — começou a vir à tona, alimentando movimentos nacionais que o regime não tinha mais instrumentos para suprimir sem contradizer seus próprios princípios reformistas.

No plano econômico, a perestroika enfrentava obstáculos igualmente formidáveis. O que estava em jogo com as mudanças econômicas que o Gorbachev queria fazer era nada menos do que desmontar parcialmente a estrutura de planejamento central que havia sido construída ao longo de décadas — e fazê-lo sem destruir o que ainda funcionava, sem criar um vácuo que levasse ao caos. Esse era um problema de uma dificuldade técnica e política extraordinária. A Gosplan — o órgão de planejamento central — havia criado ao longo de décadas uma teia de dependências e de incentivos que tornava qualquer mudança parcial extremamente difícil: mexer num ponto da cadeia produtiva criava desequilíbrios em outros pontos, e a ausência de mecanismos de mercado para absorver esses desequilíbrios significava que as reformas frequentemente produziam mais desorganização do que eficiência. A economia soviética, ao invés de se modernizar com a perestroika, começou a se deteriorar ainda mais rapidamente — criando escassez de bens básicos, filas nos supermercados e uma frustração crescente da população que havia esperado que as reformas melhorassem sua vida cotidiana.

No plano geopolítico, Gorbachev tomou uma decisão de enorme coragem e de consequências históricas. Ele buscou negociar com os Estados Unidos uma redução da corrida armamentista. Era importante para Gorbachev redirecionar o seu esforço para não continuar uma corrida armamentista sem fim que se alimenta de si mesmo — a ideia era fazer um tratado anti-balístico que permitisse à União Soviética redirecionar recursos da produção militar para a economia civil. Essa negociação culminou num encontro histórico. Foi um tratado assinado na cidade de Reykjavik, na Islândia — onde Gorbachev e Reagan chegaram a discutir reduções radicais nos arsenais nucleares de ambos os lados. Gorbachev tentou romper com essa dimensão e voltar o seu país para a paz — um gesto que, independentemente de seu resultado, revela a dimensão do projeto que Gorbachev carregava. Não apenas reformar a economia soviética, mas reposicionar a União Soviética no mundo, saindo da lógica de confronto permanente que havia consumido recursos imensos sem produzir segurança real.

Mas enquanto Gorbachev negociava a paz no exterior, a crise se aprofundava no interior. A figura que emerge como o principal adversário político de Gorbachev dentro da própria estrutura soviética é Boris Yeltsin — primeiro presidente da Rússia e aquele que viria a suceder Gorbachev no pleito presidencial. Yeltsin havia sido um aliado de Gorbachev nos primeiros anos das reformas, mas rompeu com ele e passou a representar uma corrente que considerava as reformas de Gorbachev insuficientes e lentas demais. Ao mesmo tempo, Yeltsin soube capitalizar o descontentamento popular com a deterioração econômica e se apresentar como uma alternativa mais radical — não apenas reformista, mas transformadora. A disputa entre Gorbachev e Yeltsin foi, em certa medida, a disputa entre duas visões sobre o futuro da União Soviética: uma que queria reformar o sistema preservando a união, e outra que apostava na soberania da Rússia como caminho para a transformação.

O momento mais dramático e mais decisivo de toda essa crise foi o golpe de agosto de 1991. Os opositores às reformas do Gorbachev tentaram dar um golpe de Estado em agosto de 1991. Os golpistas eram exatamente aqueles que a glasnost havia mobilizado contra si mesmos, os setores mais conservadores do partido, das forças armadas e da KGB — a nomenklatura que havia perdido privilégios e poder com as reformas e que tentou, num gesto desesperado, reverter o processo. Gorbachev foi preso em sua dacha — tradicionais casas de campo ou de veraneio — na Crimeia. Mas o golpe fracassou — e fracassou de uma forma que revelou o quanto a União Soviética havia mudado com a glasnost. A população de Moscou saiu às ruas para defender a democracia. Yeltsin, num gesto que se tornou icônico, subiu num tanque em frente ao Parlamento russo para resistir aos golpistas. O exército recusou-se a atirar contra os próprios cidadãos. Em poucos dias, o golpe havia colapsado.

Mas a vitória sobre o golpe não foi uma vitória para Gorbachev — foi, paradoxalmente, o início do fim. O fracasso do golpe acelerou de forma irreversível o processo de dissolução da União Soviética. As repúblicas que haviam hesitado em declarar independência aproveitaram o momento de fraqueza do poder central para fazê-lo. Boa parte do regime de Yeltsin e da nova Rússia que emergia do colapso soviético passou a operar numa lógica que já não reconhecia a autoridade da União. Em 26 de dezembro de 1991, a bandeira soviética foi arriada sobre o Kremlin e substituída pela bandeira russa. A União Soviética havia deixado de existir — menos de setenta anos após sua fundação.

É importante ter uma reflexão em mente. Toda essa trajetória histórica é uma questão que permanece aberta e urgente em nossos debates da atualidade. O que deveria ter sido o socialismo? Essa pergunta — formulada com toda a sua carga de esperança frustrada — não é uma lamentação nostálgica. É um convite a pensar seriamente sobre o que foi prometido, o que foi traído e o que ainda pode ser construído. O socialismo real havia prometido a emancipação humana e havia produzido o stalinismo, os GULAGs, a coletivização forçada e, no final, a estagnação e o colapso. Mas não devemos ter a absolvição do capitalismo ou numa resignação diante do mundo como ele é. A pergunta sobre o que deveria ter sido o socialismo é também a pergunta sobre o que ainda pode ser — e é exatamente essa pergunta quero convidá-los a tentar responder.

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