Da vontade individual à potência coletiva: pertencimento, poder e transformação histórica

Como o desejo individual se transforma em força coletiva capaz de mudar a história? A partir de grandes revoluções e movimentos sociais, o artigo explora como sofrimento, indignação, pertencimento e vontade de potência impulsionam transformações e redefinem relações de poder.

FILOSOFIA

Lucknup Haigert

10/26/202615 min read

Da vontade individual à potência coletiva: pertencimento, poder e transformação histórica

A história da humanidade é marcada por acontecimentos que demonstram a extraordinária capacidade dos seres humanos de transformar a realidade quando se organizam coletivamente. Revoluções derrubaram monarquias, movimentos populares conquistaram direitos, trabalhadores desafiaram estruturas econômicas e grupos historicamente marginalizados modificaram instituições que pareciam inquestionáveis. Em diferentes épocas, pessoas que individualmente possuíam pouca influência conseguiram, por meio da organização e da ação conjunta, alterar profundamente o curso da história.

A Revolução Francesa de 1789, as revoluções russas de 1917, a Revolução Chinesa de 1949, os movimentos abolicionistas, as conquistas dos direitos trabalhistas, as lutas feministas e as resistências ao fascismo representam processos históricos distintos, mas que compartilham uma característica fundamental: a presença de forças coletivas capazes de desafiar a ordem estabelecida. Evidentemente, esses acontecimentos não tiveram as mesmas causas, métodos ou consequências. Alguns ampliaram direitos e liberdades; outros também produziram violência, repressão e novas estruturas autoritárias. Ainda assim, todos nos convidam a refletir sobre uma questão essencial: como indivíduos, inicialmente limitados por suas próprias condições de existência, tornam-se participantes de movimentos capazes de modificar sociedades inteiras?

Uma resposta aparentemente simples seria afirmar que o sofrimento e a indignação levam os seres humanos à revolta. Entretanto, essa explicação não é suficiente. A humanidade conviveu durante séculos com desigualdades, exploração e injustiças sem que essas condições provocassem, necessariamente, transformações revolucionárias. O sofrimento também pode produzir medo, resignação, isolamento e sentimentos de impotência. Não existe uma relação automática entre sofrer e resistir, assim como não existe garantia de que a indignação individual se transforme em ação política.

Talvez seja necessário reconhecer uma força adicional: o desejo humano de ampliar suas possibilidades de existência e participar de algo que ultrapasse os limites da própria individualidade. Nesse sentido, a transformação histórica não seria impulsionada apenas pela necessidade de escapar de uma realidade insatisfatória, mas também pela capacidade de imaginar e construir uma realidade diferente. É precisamente nessa passagem entre sofrimento, desejo, pertencimento e criação que diferentes tradições filosóficas podem contribuir para nossa compreensão.

O filósofo alemão Arthur Schopenhauer, em sua obra O Mundo como Vontade e Representação, compreendeu a existência como manifestação de uma vontade incessante, uma força fundamental que impulsiona os seres vivos a desejar e continuar desejando. Para Schopenhauer, essa vontade está profundamente associada ao sofrimento, pois a satisfação dos desejos é passageira e frequentemente dá lugar a novas necessidades ou ao tédio. Sua filosofia apresenta uma visão predominantemente pessimista da condição humana, na qual viver significa permanecer submetido a um movimento contínuo de busca e insatisfação.

Embora Schopenhauer não tenha desenvolvido uma teoria das revoluções sociais, sua reflexão permite compreender por que a experiência do sofrimento ocupa uma posição tão importante na existência. Ao mesmo tempo, sua ética da compaixão oferece outro elemento para nossa investigação: a possibilidade de reconhecer o sofrimento alheio como moralmente significativo. Quando deixamos de perceber a dor apenas como uma experiência privada, torna-se possível estabelecer vínculos que ultrapassam os interesses exclusivamente individuais. Isso não significa que a compaixão produza necessariamente movimentos políticos, mas que o reconhecimento da condição do outro pode contribuir para romper determinadas formas de isolamento.

Friedrich Nietzsche, profundamente influenciado por Schopenhauer e posteriormente crítico de seu pessimismo, apresenta uma interpretação diferente da existência. Para Nietzsche, a vida não deve ser compreendida somente como uma busca pela redução do sofrimento. Sua reflexão sobre a vontade de potência permite pensar a existência como um movimento de afirmação, expansão, criação e superação de resistências.

É importante compreender que a vontade de potência nietzschiana não significa simplesmente o desejo de dominar outras pessoas ou conquistar autoridade política. Trata-se de um conceito complexo, sujeito a diferentes interpretações filosóficas, que envolve a capacidade de afirmar forças, superar obstáculos e criar novas possibilidades de existência. Em Nietzsche, a superação não precisa significar a eliminação de adversários, mas pode envolver a transformação de si mesmo e a criação de novos valores.

Essa perspectiva oferece uma contribuição importante para pensar as transformações históricas. A indignação diante de uma injustiça representa uma recusa, mas a criação de uma nova realidade exige também uma capacidade afirmativa. Uma população que rejeita determinada estrutura social pode desejar não apenas sua destruição, mas a construção de relações diferentes. Nesse contexto, a vontade de potência pode servir como inspiração filosófica para compreender a passagem da resistência à criação.

Entretanto, não seria correto apresentar Nietzsche como um defensor das grandes mobilizações populares. Sua crítica à moral de rebanho e ao conformismo coletivo revela justamente sua desconfiança diante de grupos que anulam a singularidade dos indivíduos. Essa tensão é fundamental: se o pertencimento coletivo pode ampliar nossa capacidade de agir, também pode transformar-se em obediência, uniformização e submissão. A questão, portanto, não é simplesmente reunir pessoas, mas compreender que tipo de relação surge entre elas.

É nesse ponto que o pensamento de Martin Heidegger oferece outra contribuição. Em Ser e Tempo, publicado em 1927, Heidegger argumenta que a existência humana não pode ser compreendida como a de um indivíduo completamente separado do mundo. O ser humano é um ser-no-mundo, cuja existência já se encontra envolvida por relações, significados, práticas e experiências compartilhadas. Uma das dimensões dessa condição é o ser-com: não existimos primeiro como indivíduos isolados para somente depois estabelecer relações sociais. Nossa existência já se desenvolve em um mundo compartilhado com outras pessoas.

Sob essa perspectiva, o pertencimento não representa apenas uma escolha posterior à formação do indivíduo. Nossa maneira de compreender a realidade, interpretar acontecimentos e imaginar possibilidades é profundamente influenciada pelo mundo social em que vivemos. A linguagem que utilizamos, os valores que aprendemos e as expectativas que orientam nossas decisões fazem parte dessa experiência compartilhada.

Contudo, Heidegger também identifica o perigo de uma existência dominada pelo que chama de impessoal, situação na qual pensamos e agimos simplesmente porque é assim que as pessoas costumam pensar e agir. O pertencimento, portanto, apresenta uma ambivalência: pode oferecer condições para a construção de projetos compartilhados, mas também pode favorecer a perda da responsabilidade individual. Uma coletividade capaz de transformar a sociedade não é necessariamente uma coletividade capaz de respeitar a liberdade de seus integrantes.

Se Nietzsche nos permite pensar a afirmação da potência e Heidegger nos ajuda a compreender a dimensão compartilhada da existência, Gilles Deleuze e Félix Guattari oferecem ferramentas particularmente importantes para investigar como os desejos se conectam e produzem novas realidades sociais.

Em O Anti-Édipo, publicado em 1972, Deleuze e Guattari questionam a compreensão do desejo como simples manifestação de uma falta. Para eles, o desejo também possui um caráter produtivo: cria conexões, estabelece relações, participa da organização da vida social e produz formas de subjetividade. O desejo não pertence exclusivamente ao interior de um indivíduo, pois se encontra atravessado por condições históricas, políticas, econômicas e culturais.

Essa perspectiva modifica a maneira como podemos compreender os movimentos coletivos. Uma manifestação não representa apenas milhares de desejos individuais reunidos em um mesmo espaço físico. Ela também pode constituir uma nova realidade social, produzida pelos encontros entre pessoas, ideias, afetos, discursos, símbolos e organizações. Ao participar de um movimento, o indivíduo não necessariamente permanece igual ao que era antes. Suas expectativas podem mudar, novas relações podem surgir e possibilidades anteriormente inimagináveis podem tornar-se concretas.

Deleuze e Guattari utilizam o conceito de agenciamento para pensar essas composições entre elementos diferentes. Aplicado à nossa investigação, esse conceito ajuda a compreender que a potência coletiva não resulta simplesmente da soma matemática das capacidades individuais. As relações entre as pessoas podem produzir possibilidades que não existiriam da mesma maneira se cada uma permanecesse isolada.

Uma greve organizada, por exemplo, não é apenas o resultado de vários trabalhadores decidirem individualmente interromper suas atividades. Ela envolve solidariedade, comunicação, confiança, organização, objetivos compartilhados e a capacidade de sustentar uma decisão diante das pressões externas. O que transforma a situação não é somente a quantidade de participantes, mas também a qualidade das relações que se estabelecem entre eles.

Guattari aprofunda essa discussão ao investigar os processos de produção da subjetividade. Nossa maneira de desejar, interpretar o mundo e compreender quem somos não se forma independentemente da sociedade. Instituições, relações familiares, meios de comunicação, práticas econômicas e experiências coletivas participam continuamente da constituição de nossos modos de existência.

Por isso, a transformação social não se limita à substituição de governos ou à alteração de leis. Ela também envolve mudanças na maneira como as pessoas se reconhecem, se relacionam e interpretam suas próprias capacidades. Antes que uma estrutura política seja modificada, pode ocorrer uma transformação profunda na maneira como determinados grupos compreendem seu lugar na sociedade.

A história dos movimentos pelos direitos das mulheres oferece um exemplo expressivo. Ao longo de diferentes épocas e países, mulheres organizadas questionaram concepções que apresentavam sua exclusão política, econômica e social como algo natural. A luta pelo direito ao voto, pelo acesso à educação, pela autonomia e pela igualdade jurídica não exigiu apenas mudanças legislativas. Também envolveu disputas sobre os significados atribuídos à identidade feminina, à cidadania e à participação na vida pública.

Essas mudanças não ocorreram de maneira uniforme, tampouco eliminaram todas as desigualdades. Entretanto, demonstram como uma condição social anteriormente interpretada por muitos como inevitável pode tornar-se objeto de contestação quando novas formas de consciência, organização e pertencimento se desenvolvem.

Michel Foucault permite aprofundar essa análise ao demonstrar que o poder não se encontra exclusivamente nas mãos de governantes ou nas instituições centrais do Estado. O poder circula por diferentes relações sociais, produz conhecimentos, estabelece normas, organiza comportamentos e participa da constituição dos próprios sujeitos.

Em Vigiar e Punir e História da Sexualidade, Foucault investiga como instituições e práticas sociais organizam os corpos, os comportamentos e as formas de compreender a realidade. Sua análise mostra que o poder não atua somente por meio da proibição ou da violência explícita. Ele também produz classificações, expectativas e padrões que influenciam aquilo que as pessoas consideram normal, legítimo ou possível.

Essa interpretação é especialmente relevante para compreender as grandes mobilizações históricas. Muitos movimentos não lutaram apenas pela substituição de uma autoridade, mas também pela transformação das normas que justificavam determinadas formas de dominação.

A abolição da escravidão no Brasil, formalizada em 1888, não pode ser compreendida apenas como uma decisão tomada pelas autoridades do Império. Ela foi precedida por um longo processo de resistência das pessoas escravizadas, fugas, formação de quilombos, atuação de abolicionistas, mobilizações públicas e disputas políticas. A ação de diferentes grupos contribuiu para enfraquecer as estruturas que sustentavam juridicamente a escravidão.

Entretanto, o fim legal da escravidão não eliminou automaticamente as desigualdades construídas ao longo de séculos. A transformação de uma instituição não significa a transformação imediata de todas as relações sociais produzidas por ela. Essa distinção evidencia a importância de compreender o poder como algo que ultrapassa a legislação e permanece presente nas práticas cotidianas, nas oportunidades econômicas e nas formas de reconhecimento social.

As conquistas dos direitos trabalhistas também ajudam a ilustrar a relação entre organização coletiva e transformação institucional. A redução da jornada de trabalho, a regulamentação de condições laborais e outras proteções foram influenciadas por décadas de mobilização sindical, greves, negociações e disputas políticas. A jornada de oito horas, uma reivindicação histórica do movimento operário internacional, tornou-se referência em uma das primeiras convenções da Organização Internacional do Trabalho, em 1919.

Nesses processos, uma experiência inicialmente vivida como problema individual — jornadas exaustivas, insegurança ou condições precárias — passou a ser compreendida como questão coletiva. O trabalhador deixou de enfrentar determinadas dificuldades exclusivamente como uma condição pessoal e encontrou na organização com outros trabalhadores a possibilidade de reivindicar alterações nas relações econômicas e jurídicas.

Dessa forma, podemos identificar um movimento importante: o sofrimento desperta a necessidade de mudança, o reconhecimento de experiências compartilhadas favorece vínculos, e a organização transforma esses vínculos em capacidade efetiva de ação. Ainda assim, nenhum desses elementos garante, isoladamente, o sucesso de uma mobilização. Transformações históricas também dependem de recursos, oportunidades políticas, crises econômicas, conflitos institucionais, estratégias e circunstâncias que não podem ser reduzidas à vontade dos participantes.

As revoluções Francesa, Russa e Chinesa demonstram a importância dessas condições e revelam outra dimensão da potência coletiva: sua capacidade de produzir consequências contraditórias. A mobilização de grandes grupos pode derrubar estruturas políticas, reorganizar a economia e estabelecer novas instituições. Entretanto, a vitória de um movimento não assegura que a sociedade resultante seja mais livre ou igualitária. Processos revolucionários também podem estabelecer mecanismos de repressão, concentração de poder e perseguição aos opositores.

Esse problema conduz a uma das questões mais difíceis da filosofia política: como uma força coletiva que se organiza contra determinada dominação pode evitar a reprodução de novas formas de domínio?

A própria história do fascismo exige atenção a essa pergunta. O pertencimento, os símbolos compartilhados, a identificação com lideranças e a promessa de participação em um destino coletivo também podem ser mobilizados por movimentos autoritários. A derrota militar do nazismo e de seus aliados na Segunda Guerra Mundial envolveu alianças entre Estados, esforços militares e diferentes movimentos de resistência. Ao mesmo tempo, a ascensão dos regimes fascistas demonstrou que grandes mobilizações e sentimentos intensos de pertencimento não representam, por si mesmos, garantias de emancipação.

Esse é um ponto especialmente delicado quando retomamos Heidegger. Sua adesão ao Partido Nazista em 1933 constitui um fato incontornável de sua trajetória intelectual e política. Embora a relação entre sua filosofia e seus compromissos políticos continue sendo objeto de debate, seu caso reforça a necessidade de examinar criticamente qualquer idealização da comunidade, da identidade coletiva ou de um suposto destino histórico compartilhado.

O pertencimento pode ampliar a capacidade humana de agir, mas também pode reduzir o espaço da divergência. Uma coletividade pode acolher diferenças e estimular a participação de seus integrantes, assim como pode exigir obediência e transformar adversários em inimigos. O problema central não é, portanto, apenas compreender como se forma uma potência coletiva, mas investigar quais relações de poder ela estabelece e quais possibilidades de existência ela permite ou bloqueia.

Nesse contexto, o pensamento de Foucault retorna como uma advertência importante: a transformação das relações de poder exige atenção constante às práticas pelas quais a autoridade é exercida. Não basta perguntar quem governa. É necessário investigar como se governa, quem pode participar das decisões, quais comportamentos são autorizados e quais formas de resistência continuam possíveis.

Na sociedade contemporânea, essa discussão ganha uma nova dimensão com o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han. Em Sociedade do Cansaço, Han argumenta que parte importante das formas atuais de dominação está relacionada à exigência permanente de produtividade, desempenho e superação individual.

Em sua interpretação, o indivíduo contemporâneo passa a compreender a si mesmo como um projeto que precisa ser constantemente aprimorado. A pressão por resultados, reconhecimento e sucesso pode assumir a aparência de liberdade, mesmo quando produz esgotamento e autoexploração. Diferentemente de formas mais tradicionais de disciplina, o sujeito frequentemente internaliza as exigências que orientam seu comportamento.

Essa análise permite levantar uma hipótese sobre os desafios da ação coletiva no presente. Quando problemas sociais são interpretados exclusivamente como fracassos individuais, torna-se mais difícil reconhecer suas dimensões compartilhadas. O trabalhador sobrecarregado pode acreditar que precisa apenas administrar melhor seu tempo. A pessoa submetida à insegurança econômica pode interpretar sua condição unicamente como falta de esforço. O sofrimento, nesse cenário, corre o risco de ser privatizado.

Isso não significa que a sociedade contemporânea seja incapaz de produzir grandes movimentos. As tecnologias digitais também permitem conexões, circulação de informações e formas de mobilização antes inexistentes. Entretanto, a facilidade de conexão não garante a construção de vínculos duradouros. Compartilhar uma indignação nas redes sociais não equivale necessariamente a participar de uma organização capaz de transformar instituições.

A reflexão de Han nos convida, assim, a perguntar se uma sociedade que estimula continuamente a competição entre indivíduos oferece condições suficientes para a construção de projetos coletivos. Se cada pessoa é incentivada a compreender a própria existência como uma disputa particular por desempenho e reconhecimento, a possibilidade de perceber interesses compartilhados pode encontrar obstáculos.

Retornamos, então, ao problema central: o que transforma a vontade individual em potência coletiva?

A resposta talvez esteja na relação entre três dimensões fundamentais da experiência humana: a percepção de que determinada realidade precisa mudar, o desejo de participar da construção de outras possibilidades e a formação de vínculos capazes de sustentar ações compartilhadas.

O sofrimento e a indignação podem revelar uma situação que já não parece aceitável. A vontade de potência, compreendida aqui como uma inspiração retirada da filosofia nietzschiana, permite pensar o impulso de afirmação e superação. O pertencimento oferece uma experiência de reconhecimento na qual dificuldades e aspirações deixam de ser percebidas exclusivamente como questões individuais. Finalmente, a organização coletiva transforma essas experiências em práticas, decisões e iniciativas que podem produzir efeitos concretos na sociedade.

Mas essa passagem não é automática. Nem todo sofrimento gera indignação, nem toda indignação produz solidariedade, nem todo pertencimento resulta em organização e nem toda organização conquista seus objetivos. A história é atravessada por conflitos, contingências e relações de força que impedem qualquer interpretação simplista do comportamento humano.

Também não seria adequado afirmar que Schopenhauer, Nietzsche, Heidegger, Deleuze, Guattari, Foucault e Byung-Chul Han defenderam uma mesma teoria da transformação social. Suas filosofias possuem diferenças profundas e, em determinados aspectos, incompatibilidades importantes. O que podemos fazer é estabelecer um diálogo crítico entre suas ideias, utilizando suas contribuições para iluminar diferentes dimensões de um fenômeno complexo.

Desse diálogo emerge uma compreensão possível: as grandes mudanças históricas não dependem somente da quantidade de pessoas insatisfeitas, mas também da formação de relações capazes de transformar insatisfações dispersas em projetos compartilhados. A potência coletiva surge como possibilidade quando indivíduos reconhecem vínculos entre suas condições de existência, desenvolvem perspectivas comuns e encontram meios de agir conjuntamente.

Há, entretanto, uma diferença fundamental entre pertencer a uma coletividade e simplesmente desaparecer dentro dela. Uma união que exige a anulação completa das singularidades pode produzir uma força numerosa, mas não necessariamente uma sociedade mais livre. Por outro lado, uma coletividade que reconhece diferenças, admite questionamentos e constrói formas compartilhadas de participação pode ampliar as possibilidades de ação sem reduzir todos os seus integrantes a uma identidade única.

Talvez a força mais significativa do pertencimento esteja precisamente nessa capacidade de permitir que o indivíduo descubra novas possibilidades de existência por meio de suas relações com os outros. A pessoa que antes compreendia determinada dificuldade como destino exclusivamente pessoal pode reconhecer que existem condições sociais que a produzem. Aquilo que parecia inevitável torna-se questionável. Aquilo que parecia impossível pode começar a ser imaginado de outra maneira.

As grandes manifestações, revoluções e movimentos sociais demonstram que estruturas aparentemente permanentes podem ser transformadas. Monarquias podem cair, legislações podem ser modificadas, direitos podem ser conquistados e instituições podem ser reorganizadas. Contudo, essas experiências também ensinam que a transformação histórica não constitui necessariamente um caminho contínuo em direção à liberdade. Cada conquista pode abrir possibilidades, produzir conflitos e exigir novas formas de resistência.

Por isso, a potência coletiva não deve ser compreendida como uma força automaticamente benéfica, nem como simples expressão de uma vontade comum. Ela constitui uma capacidade histórica que nasce de relações concretas entre pessoas e pode assumir orientações muito diferentes. Seu significado depende não apenas da intensidade da união, mas também dos valores, das práticas e das estruturas que essa união produz.

Ao final, talvez possamos afirmar que o sofrimento pode despertar o ser humano para a necessidade de mudança, mas existe algo que ultrapassa a experiência da dor: a capacidade de imaginar outras formas de viver e reconhecer que sua construção não precisa ser uma tarefa solitária.

A vontade individual encontra uma nova dimensão quando percebe que pode participar de uma realidade compartilhada. Nesse encontro, o desejo deixa de estar limitado às possibilidades imediatas de uma única existência e passa a integrar processos que podem atravessar gerações.

A história não é transformada apenas por indivíduos extraordinários ou por multidões reunidas ocasionalmente. Ela também é construída por pessoas que estabelecem vínculos, organizam interesses, enfrentam divergências e sustentam projetos comuns ao longo do tempo.

Talvez uma das mudanças mais profundas na consciência humana aconteça quando a pergunta deixa de ser apenas “o que posso fazer para mudar minha vida?” e passa a ser “o que podemos construir juntos para transformar a realidade em que vivemos?”.

É nessa passagem do eu ao nós, sem que o indivíduo precise perder sua singularidade, que podemos encontrar uma das possibilidades mais importantes da potência coletiva: a capacidade humana de transformar não somente as circunstâncias da própria existência, mas também as condições históricas em que outras existências se tornam possíveis.

Crédito: Juan Barreto / Agence France-Presse (AFP)
[Presidente Luiz Inácio Lula da Silva acena com a bandeira do Brasil na Avenida Paulista, após a vitória da reeleição de 2026]

VOLPEDO, Giuseppe Pellizza da. Il Quarto Stato. 1898-1901. 1 original de arte, óleo sobre tela, 293 cm x 545 cm. Museu do Novecento, Milão.

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